Embora não façam parte dos grupos prioritários para receber a vacina, gestantes têm risco maior de desenvolverem quadros graves da doença.

O tema gravidez e Covid-19 ainda está envolvo em muitas dúvidas. Conforme as pesquisas científicas avançam, entidades sanitárias importantes, como a Organização Mundial de Saúde (OMS) e o Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC, da sigla em inglês), tentam acompanhar os resultados para adaptar as orientações, que podem mudar a qualquer momento.

No Brasil, as principais recomendações para está planejando uma gravidez, gestantes e mulheres que acabaram de dar a luz (puérperas) estão no Manual de Recomendações para a Assistência à Puérpera Frente À Pandemia de Covid-19, do Ministério da Saúde.

Algumas pesquisas mostram que as grávidas são mais propensas a desenvolverem quadros mais graves de Covid-19. Mas, como, em regra, os testes de vacina não são autorizados em mulheres grávidas, elas estão fora dos grupos prioritários para imunização.

Para responder a algumas dúvidas sobre a Covid-19 em gestantes, o Metrópoles conversou com três especialistas no assunto. Confira as respostas de Rodrigo Rosa, ginecologista obstetra especialista em Reprodução Humana, membro da Sociedade Brasileira de Reprodução Assistida (SBRA) e da Sociedade Brasileira de Reprodução Humana (SBRH) e sócio-fundador e diretor clínico da clínica Mater Prime, em São Paulo; Bruno Ramalho, ginecologista do Hospital Brasília, e Werciley Júnior, infectologista e chefe da Comissão de Controle de Infecção do Hospital Santa Lúcia.

É melhor esperar a pandemia passar para engravidar?
A resposta para esta pergunta é relativa, segundo os especialistas. O ginecologista e obstetra Rodrigo Rosa explica que, de acordo com a maioria das sociedades médicas no Brasil e no mundo, não há motivos para adiar as tentativas de gravidez por conta da pandemia.

No início da pandemia, em março de 2020, o ginecologista Bruno Ramalho explica que a orientação geral era de que as mulheres aguardassem o fim da doença para engravidar. “Os dados da época indicavam que a curva da doença estaria em queda em agosto, mas este prazo foi sendo esticado”, detalha. “O que acontece é que hoje temos uma completa imprevisibilidade, especialmente no Brasil. Então é difícil dar uma orientação profissional que vai alterar a vida das pessoas sem ter informações.”

Segundo o especialista, mulheres com menos de 35 anos e que estejam expostas constantemente ao vírus (seja por conta da profissão ou pela alta prevalência de infecções na região onde vivem) ou que tenham comorbidades devem esperar para engravidar. “Para as que têm idade reprodutiva considerada avançada, ou seja, que têm mais de 35 anos, é difícil recomendar o adiamento”, pondera Bruno. Preservar óvulos pode ser uma alternativa nestes casos, segundo o médico.

Já o infectologista Werciley Júnior acredita que, se for possível, o ideal é adiar o plano de ter um filho. “Se não der para esperar, o melhor é ter o acompanhamento de um ginecologista e de um infectologista, antes da gravidez, durante e após o parto”, orienta o médico.

Mulheres com Covid-19 podem amamentar?
Sim. O ginecologista Rodrigo Rosa explica que mulheres que estão amamentando e estão infectadas podem dar o leite materno para os bebês, desde que usem máscara para proteger a criança. “Dependendo do caso, o bebê vai tomar mamadeira, como acontece em um banco de leite, mas pode ser o leite da própria mãe”, completa. Também é indispensável manter a higiene das mãos constantemente.

“Não conheço nenhum estudo que demonstre que o aleitamento seja fator de risco para o bebê”, reforça o ginecologista Bruno Ramalho. Segundo o especialista, alguns estudos pequenos detectaram a presença do coronavírus no leite materno, mas não demonstraram que os bebês amamentados com este leite foram infectados.

Grávidas podem transmitir o coronavírus para o feto?
Apesar de já existirem relatos de transmissão do vírus pela placenta, Werciley Júnior afirma que as pesquisas são restritas e, por isso, pouco significativas. “Existe a possibilidade, mas [o coronavírus] não causa dano real para a criança ao nascer”, reforça o infectologista.

A vacina é recomendada para grávidas?
A gravidez, por si só, já diminui as defesas imunológicas da mulher. Ainda assim, apesar da ciência não ter respostas claras sobre os efeitos do coronavírus em gestantes, o infectologista Werciley Júnior defende que a opção mais segura é que elas sejam vacinadas. “Ainda não sabemos o real efeito da vacina entre as gestantes mas, atualmente, é melhor tomar a vacina do que correr o risco [de desenvolver a doença]”, reforça.

Bruno Ramalho pondera que a recomendação está em “frequente observância e alteração”. Segundo o ginecologista, as maiores chances de complicações por Covid-19 entre gestantes são um motivo para recomendar a vacinação, mas a decisão final deve ser tomada pela mulher em conjunto com a equipe médica que a acompanha. “Esta orientação também contempla as puérperas e as tentantes, mulheres que querem engravidar em breve ou já estão tentando”.

O pré-natal pode ser feito só via telemedicina?
Não. Isso porque os médicos precisam avaliar o crescimento fetal, realizar exame de colo de útero, ultrassom e outros procedimentos impossíveis de serem feitos à distância. Uma opção para diminuir a exposição de gestantes é o modelo híbrido de consultas: algumas em consultório, outras pela internet. “Por telemedicina, podemos conversar para que a paciente relate sintomas mais gerais, como queimação, vômitos e náuseas”, completa o infectologista Werciley Júnior.

O que acontece se a mãe estiver com Covid-19 depois do parto? Ela é separada do bebê?
Geralmente não. O ginecologista Bruno Ramalho explica que a mãe é orientada a seguir as medidas de proteção, como usar máscara sempre que estiver em contato com a criança, inclusive durante a amamentação, mas permanece junto com o bebê na maioria dos casos.

“Estudos mostram que crianças de mães com Covid-19 não pegam o vírus. Nos raros casos em que eles são contaminados, a evolução da doença tende a ser muito mais branda em recém-nascidos do que em adultos”, detalha Ramalho. “Mas ainda não temos estudos de longo prazo sobre isso. Temos que lembrar que este vírus e esta doença são conhecidos há pouco mais de um ano. Ainda temos muito o que descobrir, precisamos de mais dados antes de fazer afirmações.”

Fonte: Metrópoles