O excesso de eletrônicos e o distanciamento social podem causar tensões e rugas na face e no pescoço, além de quadros psicológicos. Entenda.

A professora Olívia Machado, de 40 anos, passou boa parte do último ano se olhando pela câmera das aulas por videoconferência. O que ela viu, no entanto, não agradou. “Comecei a enxergar o meu rosto caído, entristecido e cansado”, lembra. O reflexo do estresse, do isolamento e da preocupação com a crise global de saúde passou a transparecer na pele da goiana.

Dar um “zoom” na face pode ser como colocar uma lupa, lançando luz a pequenos defeitos que antes não incomodavam. Com iluminação ruim, ângulos infelizes e recortes estranhos, as videoconferências, seja para trabalho, seja para entrar em contato com amigos e familiares, serviram para realçar alguns defeitos. O resultado? Uma maior procura por procedimentos estéticos e cirúrgicos.

No caso de Olívia, o autocuidado não é novidade. Ela está acostumada a cumprir uma rotina de skincare cuidadosa, praticar atividade física e fazer terapia. No entanto, desde que começou a pandemia, percebeu o surgimento de mais espinhas, queda de cabelo e outros problemas de saúde. “Eu tive que recorrer à dermatologista, porque a tensão me afetou, de dentro pra fora, e o psicológico virou um efeito físico”, compartilha.

A escolha para recuperar a autoestima e diminuir o incômodo com as novas rugas foi, além de muita terapia, investir no botox sculptra, uma aplicação que serve como tratamento e prevenção da flacidez e para atenuar as linhas de expressão.

“Pode parecer supérfluo, mas eu passei a me sentir melhor. Em um período muito ruim, eu encontrei esse tipo de procedimento para ajudar na autoestima, e agora me sinto outra pessoa, me agrada muito mais o que eu vejo”, afirma.

Izabel Veras, 55, também se rendeu ao procedimento pela primeira vez na pandemia, depois de muito adiar a decisão. “Acho fundamental para a nossa autoestima a gente se cuidar. Eu me arrumo para mim mesma”, diverte-se.

Assim como aconteceu com a Olívia e Izabel, algumas particularidades impostas pela nova realidade pós Covid-19 começaram a surgir de dentro para fora em sinais estéticos. O tech neck, por exemplo, que já era uma realidade desde o aumento do uso das redes sociais, se intensificou.

As máscaras no rosto criaram um ambiente propício para a multiplicação das espinhas; problemas oculares ficaram mais recorrentes pelo excesso de telas; e o número de cirurgias plásticas aumentou significativamente. Se você se identifica com algum desses incômodos — entenda as causas e aprenda, de uma vez por todas, a resolvê-los.

Tech Neck

Você já parou para contar quantas horas do dia passa olhando para baixo? Seja digitando no computador para trabalhar ou mexendo nas redes sociais, estudos apontam o tempo que você passa com a cabeça inclinada é um dos principais responsáveis pela formação de rugas no pescoço e flacidez, além de ser algo prejudicial à coluna.

Sim, nós estamos falando da tão temida papada e das rugas no pescoço, como explica a cirurgiã plástica Juliana Sales, especialista em cosmiatria e membro da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP) do Rio de Janeiro.

“A papada é um aspecto esteticamente desagradável na região que pode ser decorrente de flacidez da pele associada, ou não, ao aumento de gordura local”, explica a médica. Porém, além dos hábitos digitais intensificados pela pandemia, outros fatores impactam na perda de elasticidade e no envelhecimento da pele.

Fatores como tempo, exposição solar sem proteção, álcool, cigarro e estresse também contribuem para a oxidação da derme. Assim como um fator genético envolvido, o que explica por que, em alguns casos, a característica é familiar.

Em consultório, algumas técnicas da estética prometem resolver o problema, como a criolipólise — indicada para tratar a gordura local, a partir do congelamento de células — e o ultrassom microfocado, que estimula o próprio organismo a produzir colágeno.

Porém, existem algumas medidas caseiras para ajudar a melhorar o aspecto local, como o uso de cosméticos para a hidratação diária e cremes anti-idade. A especialista em yoga facial e fonoaudióloga Alessandra Scavone garante que alguns exercícios simples feitos diariamente também ajudam a fortalecer a região e tonificar a musculatura.

Maskne

Em mais uma adição ao glossário pós-pandemia, a maskne nada mais é que o surgimento de espinhas intensificado pelo uso da máscara. De acordo com a dermatologista Natália Souza Medeiros, da Rede Santa Lúcia, a proteção facial promove um abafamento no local, o que resulta em um aumento da umidade, da oleosidade e também alteração da flora bacteriana no rosto, propiciando o surgimento da acne.

Como deixar de usar máscara não é uma opção, a orientação da especialista é investir em limpeza e hidratação adequadas. “É fundamental manter uma rotina diária usando produtos de limpeza para evitar a obstrução de poros e oleosidade, além do filtro solar, é claro”, aconselha.

O uso da maquiagem também pode agravar o problema. Portanto, que tal deixar a pele respirar um pouco mais e diminuir a cobertura? Caso isso seja um incômodo, “existem maquiagens tecnológicas que não obstruem os poros e são indicadas para a pele oleosa ou acneica — como os produtos livres de óleo e com toque seco e efeito mate”, explica Geisa Costa, especialista em dermatologia e idealizadora do Art Beauty Center.

Excesso de telas

Olho seco, cansaço visual, dor de cabeça e distúrbios do sono. Esses são apenas alguns dos sinais de que o excesso de telas está afetando a saúde dos seus olhos. Com o homeoffice e o distanciamento social, há uma exposição maior aos monitores — dentro e fora do horário de trabalho — e a exposição à luz que eles emanam, a chamada luz azul, pode afetar a visão a longo prazo.

A exposição excessiva em intensidade elevada pode causar alterações nas células da retina e na superfície ocular. Porém, existem algumas ferramentas para proteger seus olhos do excesso de telas.

A oftalmologista Keila Prado, da Auge Oftalmologia, ensina algumas técnicas fundamentais para reduzir os efeitos da luz azul na saúde ocular:

Procure filtros que diminuam a incidência da luz azul, disponíveis para as lentes dos óculos

Instale programas de computador que ajudem a reduzir a luz azul do computador ou do celular

Crie o hábito de fazer pausas por alguns minutos após um longo período de uso

Invista em lubrificantes oculares indicados por um especialista

Preste atenção na altura do computador e na sua postura

Cirurgias plásticas

“Eu nunca tinha pensado em colocar silicone, até a pandemia”, conta Amanda Sousa, 24. A brasiliense decidiu investir no procedimento cirúrgico depois que viu o corpo passar por mudanças durante o último ano. Ela viveu um processo de ansiedade grave e, com o isolamento social e o cenário negativo, teve depressão, perdeu pouco mais de 10kg e viu todas essas alterações transparecendo esteticamente.

Com o emagrecimento notável, a visão de Amanda sobre o próprio corpo mudou, e ela passou a enxergar a possibilidade da cirurgia plástica com mais seriedade.

“A gente acabou ficando 100% com nós mesmos, nossas inseguranças e pensamentos, e isso criou o ambiente propício para que nos olhemos mais criticamente, até pela fragilidade emocional que essa situação provoca”, acredita.

Com a cirurgia aguardando a situação da pandemia ficar um pouco menos crítica, Amanda reforça que a decisão não foi tomada no calor do momento. “Esse foi um tema muito tratado em terapia, porque eu fiquei em dúvida sobre até que ponto isso era uma vontade minha ou uma insegurança por eu estar em um momento mais frágil da minha vida. Conversei muito com minha psicóloga sobre todas as minhas questões de autoestima e segurança, até porque é um procedimento grave e uma cirurgia que deve ser tratada com a seriedade devida”, frisa.

A experiência de Amanda se une à de tantos outros brasileiros que decidiram procurar um cirurgião plástico para mudar algo que incomoda no próprio corpo. Porém, muitas vezes essa decisão é tomada sem acompanhamento psicológico de um especialista.

De acordo com a cirurgiã-plástica Marcela Cammarota, diretora do Departamento de Comunicação da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP), “provavelmente, uma das situações mais comuns que vivenciamos hoje nos consultórios é a busca pela imagem perfeita e o medo de situações que habitualmente seriam corriqueiras”, afirma.

As pacientes estão mais exigentes ao extremo. Não no sentido positivo do cuidado, e sim na busca pelo inatingível, como explica a especialista. “Nós médicos tivemos que redobrar o cuidado em explicar exaustivamente os limites de um procedimento estético ou de uma cirurgia. Não é incomum, após uma avaliação, explicarmos para o paciente que aquele procedimento não é adequado e, mesmo assim, ele buscar outros profissionais até que consiga realizar seu desejo, independente dos riscos”.

Dismorfia corporal

Uma preocupação entre os consultórios psiquiátricos e que acaba refletindo nas mesas de cirurgia é o quadro de dismorfia corporal — quando há um foco obsessivo em um defeito da própria aparência, supervalorizando imperfeições e impactando diretamente na autoestima.

O transtorno dismórfico corporal (TDC) atinge 2% da população, cerca de 4,1 milhões só no Brasil. Em tempos de redes sociais e culto à aparência em alta, o problema encontra um terreno fértil para crescer.

De acordo com a terceira edição do Manual Diagnóstico e Estatístico de Distúrbios Mentais, o DSM, o transtorno leva o paciente a criar um incômodo significativo com uma pequena característica, e a preocupação é tamanha que ele acha que é motivo de ridicularização.

Esse incômodo pode levar a uma obsessão por procedimentos estéticos ou cirurgias plásticas. Uma busca obsessiva pela beleza — que por si só é um conceito subjetivo — é algo que a cirurgiã Marcela Cammarota encontra frequentemente em consultório. Para garantir a realização de procedimentos de forma mais consciente, a médica pontua que a queixa deve ser realista.

“Entender que cada pessoa tem uma anatomia e características próprias de pele, flacidez e cicatrização é um bom começo. A cirurgia plástica pode melhorar os aspetos físicos. A consequência dessas mudanças em sua autoestima e autoconfiança pode ser grande, mas depende da forma como você vê o mundo e entende a vida. A ausência de pensamentos positivos a seu respeito não será resolvida na mesa de cirurgia”, aconselha.

Fonte: Metrópoles