Comissão de Valores Imobiliários investiga “movimentações atípicas” com as mudanças na cúpula da estatal. Três dias após anunciar reajuste do diesel e da gasolina, José Mauro Coelho cai ante as pressões políticas provenientes de Brasília.

A maior empresa brasileira de capital aberto passa por um terremoto político. E quem caiu desta vez foi José Mauro Coelho, o terceiro a deixar o comando da estatal no governo Bolsonaro. Coelho não resistiu à pressão dos Poderes da República após anunciar, na sexta-feira, o reajuste na gasolina e no diesel.

Logo pela manhã, Mauro Coelho recebeu o troco. Em comunicado, a Petrobras anunciou a saída do executivo. Foi o ato final após semanas de acusações contra os integrantes da cúpula da petroleira. E, a julgar pelas negociações no Congresso Nacional, capitaneadas em boa medida pelo presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), novas mudanças virão no comando da Petrobras.

A saída de José Mauro Coelho teve reação imediata no mercado financeiro. A Comissão de Valores Mobiliários (CVM) abriu processo administrativo e cobrou explicações à estatal sobre “movimentação atípica” na bolsa de valores de São Paulo (B3) entre 3 de junho de 2022 e 17 de junho de 2022.

A CVM acumula oito processos abertos contra a Petrobras. Informou que “acompanha e analisa informações e movimentações envolvendo companhias abertas e o mercado de capitais, tomando as medidas cabíveis, sempre que necessário”. Ao longo do mês de junho, por exemplo, as ações preferenciais (PETR4) — sem direito a voto, chegaram a ter alta de 231%.

Em resposta à CVM, a Petrobras alegou que “não tem conhecimento de qualquer ato ou fato relevante pendente de divulgação que possa justificar as oscilações registradas no preço, na quantidade e no número de negócios envolvendo ações de sua emissão, no período de 03 de junho de 2022 a 17 de junho de 2022”.

Nesse dia turbulento, os papéis da petroleira fecharam em alta. As ações ordinárias (PETR3) terminaram o pregão em alta de 0,87 e as preferenciais (PETR4), 1,14. Ao longo do dia, as ações caíram 7,31% e 6,88%, respectivamente.

Outro fato contribuiu para a Petrobras ocupar o centro das atenções ontem. No mesmo dia que divulgou a demissão do José Mauro Coelho, pressionado em razão dos lucros exorbitantes e dos sucessivos reajustes no preço dos combustíveis, a estatal anunciou o pagamento da primeira parcela da distribuição de R$ 24,25 bilhões em remuneração aos acionistas. Somente a União, maior acionista da estatal, receberá R$ 8,85 bilhões. O Conselho de Administração aprovou o repasse em maio, mas o comunicado ao mercado foi feito nesta segunda.

Também em maio deste ano, a companhia reportou ao mercado lucro líquido de R$ 44,561 bilhões no primeiro trimestre de 2022, o maior da história. A segunda parcela da remuneração será paga em 20 de julho.

O governo federal detém 36,6% do capital total da companhia e é o maior acionista da Petrobras. Por isso, a alta lucratividade e os preços elevados dispararam uma crise política em torno da estatal e levaram o presidente Jair Bolsonaro (PL) a pressionar a empresa por mudanças na direção da companhia, que culminaram na renúncia do agora ex-presidente José Mauro Ferreira Coelho.

O mercado aguarda a oficialização da indicação do secretário de desburocratização do Ministério da Economia, Caio Mario Paes de Andrade, embora o Conselho de Administração da Petrobras tenha anunciado o diretor executivo de Exploração e Produção da Petrobras, Fernando Borges, como presidente interino.

De acordo com o pesquisador Eduardo Costa Pinto, do Instituto de Estudos Estratégicos de Petróleo (Ineep), o lucro recorde da Petrobras se deve à atual política da estatal por preços máximos. “Com a atual política de preços, o lucro da empresa aumenta. Mas está sendo fortemente distribuído para os acionistas. Se houvesse vontade de reduzir o repasse aos acionistas, a Petrobras ainda seria a segunda empresa em lucratividade do mundo no setor de petróleo e gás”, aponta Costa Pinto.

Diretamente afetados pelo preço dos combustíveis, os caminhoneiros se manifestaram ontem. “O país vai parar naturalmente, por não ter mais condições de rodar”, disse, em vídeo, o presidente da Associação Brasileira de Condutores de Veículos Automotores (Abrava), Wallace Landim, conhecido como Chorão Caminhoneiro. Ao lado de uma bomba de combustível, Landim exibiu ontem o preço em um posto de São Paulo, onde o diesel era vendido por R$ 8,70 o litro. “Estou aqui em São Paulo, 300 litros de diesel, R$ 2.610, R$ 8,70 o litro do diesel”, lamentou.

“Vamos acordar, se unificar e ir para cima da Petrobras. E, quando eu falo ir para cima da Petrobras, é ir para cima do governo federal, também. Quem nomeia o presidente da estatal é o senhor Jair Messias Bolsonaro, que fez um compromisso para nós de mudar esse preço de paridade de importação em 2018. Por isso nós acreditamos no senhor”, comentou Chorão.

 

 

 

Fonte: Correio Braziliense