Fazer a lista de compras do mercado, marcar a consulta das crianças – e muitas vezes do marido –, comparecer à reunião na escola, colocar as roupas para lavar, limpar a casa, organizar as contas, cozinhar, trabalhar fora… A lista de cuidados e afazeres é extensa. Poderíamos dizer que esse é um estresse que atinge toda pessoa adulta, mas na verdade, a sobrecarga é quase sempre feminina.
Segundo informações do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2022, as mulheres gastaram 9,6 horas por semana a mais do que os homens com afazeres domésticos ou cuidados com pessoas. São 21,3 horas por semana no caso delas, e somente 11,7 no caso deles. O levantamento revelou ainda que, enquanto 91% das mulheres realizaram alguma atividade relacionada a afazeres domésticos, essa proporção foi de 79% entre os homens. A taxa de realização de afazeres domésticos é maior entre as mulheres negras (92,7%).
Para iniciar essa conversa, primeiro precisamos entender o que é carga mental. “A carga mental vem do conceito da psicologia mesmo. Quando o indivíduo libera uma energia mental para desenvolver algum tipo de trabalho, o tamanho dessa energia liberada – que são os pensamentos, resoluções, planejamento para se fazer o trabalho, preocupação com o trabalho a ser feito –, isso tudo é transformado numa carga”, explica Cíntia Aleixo, psicóloga especializada em saúde mental feminina.
Mas por que essa carga, na maioria das vezes, recai apenas sobre as mulheres?
“Naturalmente as mulheres têm um menor reconhecimento do trabalho que produzem, principalmente os trabalhos domésticos e com crianças, com filhos, ou até no cuidado com as pessoas que convivem com essa mulher (família, mais velhos, companheiros). Isso envolve uma carga maior porque a exigência é maior com o gênero feminino. Eu acho que isso tudo, historicamente falando, é respondido por conta da nossa possibilidade de vivência e sobrevivência femininas. As mulheres vêm desse ritmo de trabalho invisível, que é o trabalho doméstico, não remunerado, não reconhecido e esse papel foi atribuído às mulheres. E hoje em dia, quando a mulher sai de casa para trabalhar, prestar um serviço, mesmo remunerado, ela não perde esse outro tipo de carga, que é o trabalho invisível.”
É importante destacar que organização e planejamento também cansam. Às vezes, a mulher tem um parceiro que divide as tarefas domésticas e o cuidado com os filhos, mas fica por conta dela planejar e orientá-lo sobre o que precisa ser feito. Mesmo que haja outra pessoa “colocando a mão na massa”, precisar se preocupar e gerenciar absolutamente tudo pode causar muita exaustão mental.
Os impactos da carga mental
As consequências da sobrecarga na vida da mulher são muitas. Primeiramente, vem o cansaço (físico e mental), decorrente de uma lista de tarefas que parece nunca ter fim. Depois, podem vir outros problemas, como irritabilidade, alterações de sono, estresse e problemas de memória.
“As mulheres assumem realmente a maior responsabilidade porque é meio que inconsciente, está meio que intrínseco, da mulher levantar para fazer, da mulher fazer uma lista de mercado, da mulher entender o que falta em casa, da mulher pensar nos uniformes escolares, roupas que ficaram pequenas, roupas que precisam ser colocadas para lavar, economia mesmo financeira da casa, fazer o controle da grana que sai, da grana que entra – ainda que tenha uma outra pessoa trazendo essa renda, cabe à mulher geralmente cuidar dessa administração. E isso gera uma uma sobrecarga muito grande”, destaca Cíntia.
O relatório “Esgotadas“, da Ong Think Olga, apontou que 45% das mulheres no Brasil têm diagnóstico de ansiedade, depressão ou outro transtorno mental, e apresentam sintomas como estresse, fadiga, baixa autoestima, insônia e tristeza. Na pesquisa, as principais causas que elas apontaram para esse cenário estão relacionadas à falta de dinheiro, sobrecarga e insatisfação com o trabalho.
O documento destaca que uma em cada quatro mulheres que cuidam de alguém está insatisfeita ou extremamente insatisfeita com sua saúde emocional e afirma que “o serviço de cuidar exige muito tempo, é mal pago (quando pago) e gera um esforço invisibilizado e contínuo”.
Cíntia aponta que um fator importante nesse contexto é o meio no qual a mulher está inserida, em que muitas vezes ela vai ouvir dos outros – mesmo que não de forma explícita – que esse é o papel dela, que ela deve fazer todo o trabalho. Por isso, a conscientização sobre o tema é tão importante.
Fonte: UOL










