Manaus | 7 de agosto de 2026 | 11:15:52

Bolsonaro confirma que enviou dinheiro aos EUA por ‘dúvida’ da política de Lula

Segundo a PF, o ex-presidente transferiu R$ 800 mil para os Estados Unidos, com o objetivo de permanecer na região durante uma suposta tentativa de golpe de Estado que se desdobrava no Brasil

O ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) confirmou nesta quinta-feira (15) ter transferido R$ 800 mil para um banco dos Estados Unidos antes de viajar com a família ao país no fim de dezembro de 2022 e evitar a passagem de faixa para Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

“Enviei, sim, da minha poupança do Banco do Brasil para o BB América. Ou seja, o dinheiro continuou em um banco brasileiro. Dizia a nossa querida Polícia Federal que o último país do mundo que um golpista e ditador enviaria recursos seria os Estados Unidos, porque é um país democrático e que respeita tratados. E esses recursos seriam imediatamente bloqueados. Além disso, em 2023, os brasileiros enviaram para fora do país dois bilhões e 100 milhões de dólares. Isso não é crime. E por que eles fizeram isso? Porque, assim como eu, tinham dúvidas sobre a política e economia do atual mandatário de esquerda”.

Segundo investigação da Polícia Federal (PF), o objetivo da transferência seria manter em solo americano enquanto uma tentativa de golpe de Estado se desdobrava no Brasil e, se necessário, se instalar no exterior para se precaver de um inquérito pela conspiração de ruptura do Estado democrático de direito.

As informações constam em um documento da PF publicado pela revista Veja nesta quarta-feira (14). A quebra de sigilo bancário do então presidente demonstra que, prestes a encerrar o mandato, Bolsonaro teria feito uma operação de câmbio de R$ 800 mil em 27 de dezembro de 2022. O dinheiro teria sido transferido para um banco com sede nos Estados Unidos onde o ex-presidente tem conta.

“Evidencia-se que o então presidente Jair Bolsonaro, ao final do mandato, transferiu para os Estados Unidos todos os seus bens e recursos financeiros, ilícitos e lícitos, com a finalidade de assegurar sua permanência do exterior, possivelmente, aguardando o desfecho da tentativa de Golpe de Estado que estava em andamento”, afirma o documento da PF.

A PF observa que os recursos financeiros poderiam ser “ilícitos e lícitos” por suspeitar que parte do montante transferido tenha sido acumulado com o “desvio de bens de alto valor patrimonial entregues por autoridades estrangeiras”. A tentativa de entrada ilegal de joias recebidas em viagens oficiais pelo governo Bolsonaro foi revelada em março de 2023 pelo Estadão.

Ainda de acordo com a PF, Bolsonaro e os demais investigados da Operação Tempus Veritatis, deflagrada na semana passada, “tinham a expectativa de que ainda havia possibilidade de consumação do golpe de Estado”. Da mesma forma “estavam cientes dos ilícitos cometidos e tentavam se precaver de eventual persecução penal”, ou seja, da instalação de um inquérito e da eventual responsabilização na Justiça pela tentativa de romper com o Estado democrático de direito.

“Alguns investigados se evadiram do país, retirando praticamente todos seus recursos aplicados em instituições financeiras nacionais, transferindo-os para os EUA, para se resguardarem de eventual persecução penal instaurada para apurar os ilícitos”, aponta o documento.

Após a transferência dos R$ 800 mil para os EUA, conforme aponta a quebra de sigilo bancário feita pela PF, Bolsonaro teria ficado com um saldo negativo em sua poupança no Brasil no valor de R$ 111 mil. Esse valor foi coberto posteriormente por recursos retirados por ele de um fundo de investimentos — o documento da PF não diz quanto o ex-presidente mantinha nesse fundo.

O que diz a PF diz ter sobre a suposta ‘organização criminosa’

Na quinta-feira passada (8), por meio da Tempus Veritatis, a PF cumpriu mais de 30 mandados de busca e apreensão, tendo como alvos aliados próximos de Bolsonaro. O ex-presidente não foi alvo de mandado de prisão, mas teve que entregar seu passaporte às autoridades.

Para conseguir os mandados de busca e apreensão, além das ordens de prisão, para a operação da última quinta-feira, a PF apresentou à Procuradoria-Geral da República (PGR) um relatório. O documento tem análises de investigadores, com material anexado e apresentado como prova. O conteúdo inclui mensagens de textos e áudios, além de vídeos dos investigados.

A representação da PF disse haver indícios de tentativa de que uma “organização criminosa” visava golpe de Estado e planejou a abolição violenta do Estado Democrático de Direito.

A tentativa de golpe de Estado é considerada crime, com pena que varia de 4 a 12 anos de prisão , além da punição correspondente à violência empregada para a busca de tomada do poder – ou permanência no poder, caso a intenção seja beneficiar quem está nele.
Já a tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito ocorre quando alguém atua com violência ou grave ameaça para impedir ou restringir o exercício dos poderes constitucionais, como o STF. A punição vai de 4 a 8 anos de prisão, além da pena relativa à violência usada.

Para a suposta trama criminosa, a PF apontou seis núcleos que disseminavam “a narrativa de ocorrência de fraude nas eleições presidenciais, antes mesmo da realização do pleito, de modo a viabilizar e, eventualmente, legitimar uma intervenção das Forças Armadas, com abolição violenta do Estado Democrático de Direito, em dinâmica de verdadeira milícia digital”.

1. Núcleo de desinformação e ataques ao sistema eleitoral
Forma de atuação: produção, divulgação e amplificação de notícias falsas quanto a lisura das eleições presidenciais de 2022 com a finalidade de estimular seguidores a permanecerem na frente de quartéis e instalações, das Forças Armadas, no intuito de criar o ambiente propício para o golpe de Estado.

2. Núcleo responsável por incitar militares à aderirem ao golpe de Estado
Forma de atuação: eleição de alvos para amplificação de ataques pessoais contra militares em posição de comando que resistiam às investidas golpistas. Os ataques eram realizados a partir da difusão em múltiplos canais e através de influenciadores em posição de autoridade perante a “audiência” militar.

3. Núcleo jurídico
Forma de atuação: assessoramento e elaboração de minutas de decretos com fundamentação jurídica e doutrinária que atendessem aos interesses golpistas do grupo investigado.

4. Núcleo operacional de apoio às ações golpistas
Forma de atuação: a partir da coordenação e interlocução com o então ajudante de ordens do ex-presidente Jair Bolsonaro, Mauro Cid, atuavam em reuniões de planejamento e execução de medidas no sentido de manter as manifestações em frente aos quartéis militares, incluindo a mobilização, logística e financiamento de militares das forças especiais em Brasília.

5. Núcleo de inteligência paralela
Forma de atuação: coleta de dados e informações que pudessem auxiliar a tomada de decisões do então presidente na consumação do golpe de Estado. Monitoramento do itinerário, deslocamento e localização do ministro do STF Alexandre de Moraes e de possíveis outras autoridades da República com objetivo de captura e detenção quando da assinatura do decreto de golpe de Estado.

6. Núcleo de oficiais de alta patente com influência e apoio a outros núcleos
Forma de atuação: utilizando-se da alta patente militar que detinham, agiram para influenciar e incitar apoio aos demais núcleos de atuação por meio do endosso de ações e medidas a serem adotadas para consumação do Golpe de Estado.

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