O termo teve sua utilidade, mas e hoje em dia,?

O termo PANC, Plantas Alimentícias Não Convencionais, surgiu pela primeira vez na tese de doutorado do pesquisador Valdely Kinupp. O conceito sempre foi bastante abrangente e basicamente inclui plantas comestíveis que não tivessem produção industrial e não fossem consumidas pela população em geral – sendo pouco conhecidas.

O conceito foi abraçado por diversos chefs e cozinheiros, que passaram a integrar essas plantas em seus cardápios, mas levantou uma outra questão que considero bastante problemática na nossa gastronomia: o resumo de que apenas o eixo Rio-São Paulo compõe o cenário nacional.

Foi interessante trazer aos olhos de todos produtos que eram extremamente regionais e trazer respeito ao que muitos consideravam apenas “mato”, mas acabou se criando o que considero um grande desrespeito com as regiões do país que não o Sudeste. Plantas amplamente conhecidas e consumidas em diversas regiões foram consideradas “exóticas” e desconhecidas.

Exemplo disso é a ora-pro-nóbis, uma trepadeira que é facilmente encontrada do Rio de Janeiro até o Maranhão e amplamente consumida em Minas Gerais foi considerada “não convencional”, sendo que ela é apenas regional.

O mesmo problema enfrentou a bertalha, que não só é amplamente consumida fora da região Sudeste, como é encontrada em feiras e mercados há muito tempo, e mesmo assim foi incluída nessa categoria.

Talvez tenha chegado a hora de definir melhor o que são as PANCs e atualizar o termo, para plantas que sejam normalmente descartadas mesmo, sem que se saibam que são consumíveis, como é o caso das folhas da batata doce ou até mesmo as folhagens da dente-de leão, planta cuja florzinha é muito conhecida por ser usada na brincadeira infantil de bem-me-quer, mal-me-quer.
A solução para as outras é tratá-las como regionais. Chega a ser ofensivo com certas regiões dizer que peixinho, picão, vinagreira, taioba e tantas outras são “não convencionais”.

A gastronomia brasileira é vasta. O país tem dimensões continentais e não devemos tratar nenhuma região como central ou deixar que elas definam o que é ou não usual baseadas em seu próprio consumo e bioma.

Fonte: Metrópoles