Taxa Selic vai a 13,25% ao ano. Segundo o Banco Central, inflação preocupa e “é apropriado que o ciclo de aperto monetário continue avançando”.

O Comitê de Política Monetária (Copom), do Banco Central, cumpriu o que havia sinalizado em maio e decidiu, ontem, elevar a taxa básica da economia (Selic) pela 11ª vez consecutiva e ainda deixou a porta aberta para novas altas. O reajuste de 0,50 ponto percentual fez os juros básicos subirem para 13,25% ao ano, o maior patamar desde janeiro de 2017.

Com a nova taxa Selic, o Brasil se mantém na liderança do ranking mundial de juros reais (descontada a inflação) em uma listagem de 40 países elaborada pela Infinity Asset Management, que considera a previsão dos índices de preços para os próximos 12 meses. O país aparece no primeiro lugar da lista, com taxa real de 8,10% ao ano, à frente de vizinhos, como a Argentina, que tem juro real negativo de -14,16%.
A decisão do Copom foi unânime e em linha com as expectativas do mercado. A definição vei horas depois de o Federal Reserve (Fed, o banco central dos EUA) elevar a taxa básica do país em 0,75 ponto percentual — a maior variação desde 1994 —, acelerando o ritmo de ajuste monetário na maior economia do mundo.

Apesar de ter iniciado os aumentos dos juros em março de 2021, o Copom não deu sinais de quando vai interromper a trajetória de alta da taxa básica brasileira. Em comunicado, informou que fará um ajuste “de igual ou menor magnitude” na próxima reunião, em agosto, deixando a porta aberta para novos reajustes. “O Copom considera que, diante de suas projeções e do risco de desancoragem das expectativas para prazos mais longos, é apropriado que o ciclo de aperto monetário continue avançando significativamente em território ainda mais contracionista”, informou o texto.

Diante do cenário incerto para a inflação no país e no mundo, analistas não descartam que a Selic possa chegar a 14% até o fim do ano. Eles lembram que as previsões para a inflação de 2023 não param de subir e alertam que o BC não conseguirá cumprir a meta por três anos seguidos, apesar das recentes medidas de redução de impostos. Em 2021, o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) subiu 10,06%, quase o dobro do teto da meta, de 5,25%. Neste ano, o teto é de 5%, e, em 2023, passa para 4,75%.

Previsões

Arley Júnior, estrategista de Investimentos do Santander Brasil, lembrou que a inflação está muito disseminada, e, portanto, a tendência é de que os juros continuem subindo, podendo ficar acima de 14% até o fim do ano. “O índice de difusão do IPCA é muito alto, de 72% em maio. Não são apenas os preços dos combustíveis que estão aumentando, mas quase todos os itens pesquisados, e será difícil para o Banco Central conseguir trazer a inflação para a meta antes de 2024”, avaliou. Pelas projeções do banco, o IPCA deverá encerrar o ano em 9,5%, mas uma taxa em torno de 10% não está descartada.

No comunicado, o Copom antecipou as previsões do boletim Focus — que não é divulgado desde o início de maio por conta da greve dos servidores da autarquia. As expectativas do mercado para a inflação em 2022, 2023 e 2024 encontram-se em 8,5%, 4,7% e 3,25%, respectivamente. Já no cenário de projeções do Copom, situam-se em 8,8%, para 2022, em 4%, para 2023, e em 2,7%, para 2024, mas “não incorporam o impacto das medidas tributárias sobre preços de combustíveis, energia elétrica e telecomunicações que estão em tramitação”, diz a nota.

Para Roberto Padovani, economista-chefe do Banco BV, o ponto mais importante do comunicado foi a sinalização de que o ciclo de aperto monetário não se encerrou. Contudo, ele fez uma ressalva sobre as projeções do BC para a inflação. “As estimativas do BC estão muito otimistas, em parte, porque não incorporam a volta dos impostos sobre os combustíveis, e isso quer dizer que há mais espaço para altas do que o sinalizado”, disse.

“O cenário que o BC coloca agora, de preocupação com a inflação, vai se manter, porque ainda tem pressão nos preços do petróleo, no câmbio, neste ano e no ano que vem. As expectativas para a inflação de 2023 estão subindo. Elas deram um salto nos últimos dias e devemos rever nossas projeções também”, disse Sergio Vale, economista-chefe da MB Associados. Ele prevê que a Selic chegará a 13,75% em agosto, mas admite que há grandes chances de os juros ficarem acima de 14% neste ano.

 

 

 

Fonte: Correio Braziliense