Conheça o projeto que propõe a descoberta e encantamento pela culinária, por meio de alimentos reais, naturais e sustentáveis.

A busca por uma vida mais equilibrada, saudável e sustentável está latente em nossa sociedade e nos propõe tanto novos olhares aos hábitos diários, como também um resgate de sabedorias ancestrais.

De forma geral, o alimento disponível para a maior parte dos brasileiros faz parte de um sistema de exploração que contribui com a proliferação da miséria no campo, doenças, desmatamento, poluição, entre outros impactos negativos, pois são alimentos ultra-processados, feitos com sementes transgênicas, agrotóxicos e outros aditivos através de monoculturas controladas por grandes latifundiários.

É preciso caminharmos rumo a uma existência com saúde plena para nós e para a natureza, assim o Alimento Vivo pode ser um aliado interessantíssimo neste processo. Para falar sobre o assunto, convidei Camila de Santis, coordenadora geral do Projeto Terrapia, que diz: “A realidade atual do Brasil está muito aquém do que é o Brasil de fato, que é biodiverso e oferece biodiversidade alimentar. O contexto de alimentação e produção de alimento saudável está nebuloso, já o Alimento Vivo caminha em outra direção, pois propõe que as pessoas entrem em um processo de descoberta e encantamento pela culinária, se aproximando dos alimentos reais, naturais e sustentáveis.”

Camila começa explicando que Alimentação Viva pode ser interpretada de diversas formas: “No Terrapia, nós entendemos como a alimentação que preza pela vitalidade contida nos alimentos. Classificamos os alimentos conforme a energia vital contida neles e trabalhamos com dois grupos, os biogênicos que são alimentos geradores de vida, como as sementes em processo de germinação e brotos, e os alimentos bioativos que mantém a informação de vida, são esses os frescos e crus, de preferência orgânicos. Na alimentação viva nós não cozinhamos os alimentos, eles não passam por uma temperatura maior que 42 graus, pois entendemos que com altas temperaturas passamos a perder determinadas informações vitais essenciais para o bom funcionamento do nosso corpo.”

“São inúmeros relatos relacionados às experiências físicas, como maior disposição, energia, concentração, fortalecimento do sistema imunológico, qualidade no sono e de vida, mas a maior vantagem que percebo é que o Alimento Vivo é um objeto interessante de sensibilização para as pessoas em relação aos alimentos mais naturais. Nós propomos um processo totalmente diferente na cozinha, tem um encantamento em colocar um grão para germinar e ver ele crescer, por exemplo. Então este encantamento inspira uma maior aproximação do alimento em seu estado natural. Acreditamos que a alimentação começa muito antes de sentarmos à mesa para comer. O fato de colocar a semente para germinar é um resgate do saber ancestral, e, ao mesmo tempo, simbolicamente traz algo que a humanidade necessita”  diz Camila. Ou seja, também nos coloca em contato com o tempo real da natureza, considerando seus ciclos e sazonalidade, além de incentivar o questionamento sobre as pessoas e processos por trás do que comemos.

Camila conta que passou a ser uma adepta da alimentação viva quando conheceu o Terrapia, projeto socioambiental da FioCruz cujo objetivo é disseminar a Alimentação Viva no propósito da saúde e da agroecologia com uma metodologia de reorganização do sistema de saúde. “O projeto não é centralizado, ele propõe um processo democrático por meio do alimento com o intuito de criar ambientes saudáveis da terra à cozinha. A Dra. Maria Luísa Branco foi a fundadora, que buscando uma cura para uma questão de saúde, fez uma mudança radical e através da Alimentação Viva ela se curou e iniciou, então, o projeto, com uma horta. Hoje, o Terrapia tem um espaço dentro da Fiocruz com frentes de cursos, oficinas e outras atividades, sempre em promoção da saúde”. Camila completa explicando que: “Propondo um novo modo de construir relações e espaços mais sustentáveis, temos 3 grandes senhas: Só falamos de saúde; São todos bem-vindos desde que tragam sementes germinadas; E não nos aborrecer uns com os outros, pois assim nós voltamos a ter a consciência de que o desenvolvimento necessariamente é coletivo”.

O Terrapia incentiva um novo paradigma de saúde pública, que antes olhava para o objeto doença, no Terrapia só se fala em saúde. “A saúde não é apenas física, falar de saúde vai além da questão física e de alimentação, temos parte da população que não tem nem acesso à água e saneamento básico. Acreditamos na promoção da saúde como estratégia de articulação da autonomia da população. Temos o eixo de instigar, através das políticas públicas, os movimentos sociais, como em comunidades que trabalham com horta, alimentação saudável, e outros projetos, e assim começamos a mudar o acesso à informação – que é um ponto importantíssimo.”

Portanto, o equilíbrio entre o bem-estar individual, da comunidade rural e do solo podem ser impulsionados pela Alimentação Viva, pois esta preza pelo alimento produzido de forma ética, distribuição justa, preço comercializado justo e ainda busca pela vitalidade, sem agrotóxico, se opondo ao objetivo do agronegócio, que já começa com a ideia da monocultura, contrariando todos os aspectos da natureza. Camila incentiva que a busca por uma alimentação saudável seja gradativa e não radical, que traga acolhimento e libertação. No fim é possível percebermos que a forma que melhoramos a nossa própria saúde, estaremos melhorando a saúde da comunidade e da Terra, pois sentimos de fato esta conexão.

 

Fonte: Vogue