Manaus | 4 de junho de 2026 | 09:48:58

Mieloma Múltiplo: tratamento no SUS está 20 anos atrasado, diz médico

Disparidade entre tratamento público e particular desafia pacientes com Mieloma Múltiplo no Brasil.

No ano de 2022, Marluce da Silva Franklin, de 60 anos e coordenadora de um projeto social, começou a experimentar uma série de sintomas inexplicáveis: dores intensas, fadiga extrema, falta de ar e uma notável queda na imunidade. Após meses de exames e incertezas, ela recebeu o diagnóstico devastador de mieloma múltiplo (MM), uma forma rara de câncer que afeta o sangue.

Há apenas 25 anos, o tratamento para o mieloma múltiplo oferecia uma taxa de sobrevivência de apenas 35% dos pacientes diagnosticados, ao longo de cinco anos. Um dos principais riscos associados a esse tratamento era o desenvolvimento de neuropatia periférica, uma condição debilitante e sem cura que causa dor, formigamento, dormência e fraqueza nas mãos e nos pés.

No entanto, a evolução da medicina transformou esse cenário. Medicamentos modernos aumentaram significativamente as chances de sobrevivência, elevando a taxa para 75% das pessoas com mieloma múltiplo, cinco anos após o início do tratamento. Além disso, esses medicamentos vêm acompanhados de efeitos colaterais menos severos, proporcionando uma melhor qualidade de vida aos pacientes. Essa melhoria nas opções de tratamento representa um avanço significativo na luta contra o mieloma múltiplo.

Apesar dessas melhorias, é importante observar que ainda não existe uma cura definitiva para o mieloma múltiplo. Mesmo quando o câncer parece desaparecer temporariamente, a maioria dos pacientes enfrenta a possibilidade de recidivas em algum momento no futuro.

No entanto, uma das principais questões enfrentadas pelos pacientes com mieloma múltiplo no Brasil é a disparidade entre o tratamento oferecido no Sistema Único de Saúde (SUS) e o disponível no setor privado. Enquanto o SUS fornece tratamento inicial, muitas vezes, quando os pacientes apresentam recidivas, os médicos enfrentam limitações de opções de medicamentos.

O hematologista Jorge Vaz, do Grupo Oncoclínicas de Brasília e vice-diretor de Comunicação da Associação Brasileira de Hematologia e Hemoterapia (ABHH), ressalta que o tratamento ideal para o mieloma múltiplo inclui três classes de medicamentos: inibidores de proteassoma, imunomoduladores e anticorpos monoclonais. No entanto, o SUS oferece apenas as duas últimas classes, deixando de fora os inibidores de proteassoma. Essa lacuna coloca o SUS, pelo menos, duas décadas atrás da medicina moderna em relação ao tratamento do mieloma múltiplo.

Marluce Franklin, que inicialmente recebeu quimioterapia pelo SUS, relata que mesmo após o tratamento, ela continuava a sofrer com dores que afetavam sua qualidade de vida. Em 2023, ela conseguiu acesso a um plano de saúde que possibilita o uso de medicamentos mais modernos, trazendo esperança para sua batalha contra o câncer.

A disparidade no tratamento do mieloma múltiplo no Brasil é uma questão crítica que impacta diretamente a qualidade de vida e as perspectivas de sobrevivência dos pacientes. Enquanto a Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias (Conitec) avalia a inclusão do carfilzomibe, um inibidor de proteassoma, no SUS, os pacientes continuam a lutar pela igualdade no acesso a tratamentos mais avançados.

A decisão da Conitec de encaminhar o assunto para consulta pública, com uma recomendação preliminar desfavorável, destaca a complexidade desse debate. Avaliar aspectos como eficácia, acurácia, efetividade, segurança e impacto econômico da nova tecnologia no SUS é essencial para garantir o acesso a tratamentos atualizados e oferecer esperança aos pacientes que enfrentam o mieloma múltiplo.

Relacionados

Espaço Publicitário

Últimas postagens