Manaus | 4 de junho de 2026 | 16:11:24

Pai transexual grávido de mãe transexual deu à luz ao seu primeiro filho

Como um homem pode dar à luz e uma mulher trans amamentar.

Roberto sempre quis ser pai. Erika sempre quis ser mãe. Na verdade, era mais do que isso. Os dois buscavam algo em comum: construir uma família. Pode parecer clichê ou óbvio demais, mas, para muitas pessoas trans, aquelas que não se identificam com o gênero do nascimento, esse é um objetivo distante.

Erika Fernandes, mais do que Roberto Bete, sabe bem o que é isso. Mulher trans, natural de Aracaju (SE), escutou com frequência que “construir uma família” ou até mesmo encontrar o amor não eram para ela.

Inclusive, chegou a ouvir conselhos —que eram dados com boas intenções— de que não deveria fazer a transição de gênero, momento em que mudanças corporais começam a aparecer após a reposição de hormônios (neste caso, estrogênio e progesterona).

“Diziam que eu teria uma vida solitária, sem um relacionamento, sem alguém para me amar. Diziam que a vida de trans é rua, prostituição e drogas, tudo de pior”, lembra a empreendedora de 28 anos.

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No entanto, ela passou pela transição, há cerca de 6 anos, e manteve o sonho da família —que foi realizado no último dia 10 de maio, com o nascimento de Noah.

Roberto, 32, conheceu a mãe de seu filho em 2019, pelas redes sociais —o casal é bem ativo nessas plataformas, onde mostra sua rotina. No Instagram, Roberto tem 51 mil seguidores e Erika, quase 57 mil.

Ficaram um tempo juntos, mas Erika já queria namorar sério e constituir família. Beto, como é chamado, estava no “ápice da transição” e não desejava ser pai naquele momento, pois tinha acabado de fazer a mastectomia —cirurgia de remoção completa das mamas que alguns homens trans podem realizar.

“Estava me sentindo gato. Queria curtir a vida. Tinha saído de um casamento, fiquei muito tempo com uma pessoa. Não pensava em me casar e ter filho”, conta.

Depois de 6 meses praticamente sem se falarem, em maio de 2020, Erika resolveu mandar mensagem para desejar feliz aniversário a Beto. Eles voltaram a conversar e as coisas desenrolaram-se rapidamente. Começaram a namorar sério e resolveram dar um novo passo: tentar ter um bebê.

A decisão não foi nada fácil, principalmente para Roberto. Segundo ele, a ideia de um homem engravidar era estranha. Mas com ajuda indireta de Erika, passou a olhar a possibilidade de gravidez de outra forma e foi acostumando-se com a ideia.

“Essa vontade dela de ser mãe despertou muito esse meu querer. Quando comecei a conhecê-la mais profundamente, vi o ser humano que a Erika é e a mãe que poderia se tornar. Isso despertou ainda mais minha vontade de ter um filho com ela”, diz o empresário.

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Inicialmente, o plano de Roberto era engravidar quando chegasse aos 35 anos, ou seja, dali a 5 anos. Só que algo começou a preocupar muito o casal: a terapia hormonal que ambos realizavam havia mais de 6 anos. Os dois temiam terem se tornado inférteis e começaram a acreditar que não conseguiriam engravidar de forma natural, como desejavam.

Será que meu útero ainda estará apto aos 35 anos?”, pensou Beto, que na época estava com 30. “Se não tentar agora, será que vou conseguir depois?”, “Será que vale a pena arriscar?”, “Será que não é melhor fazer isso logo?”. Ele se questionava o tempo todo.

Piora do humor e altos e baixos do casal: os efeitos da interrupção dos hormônios

Antes, é importante deixar bem claro que nem todas as pessoas trans realizam terapia hormonal, também conhecida como hormonização. Roberto e Erika faziam o tratamento e tiveram de interrompê-lo até Beto engravidar —e ele continuou sem usar testosterona durante a gestação, para não prejudicar o desenvolvimento de Noah.

Quando pararam com a terapia, os dois sentiram no corpo os efeitos dos hormônios —e da falta de alguns deles—, tanto física como mentalmente. Beto começou a se sentir mais desanimado. Muitas espinhas apareceram no rosto, além de uma irritação maior entre eles —por causa da alteração de humor, que piorou ao interromper o tratamento hormonal, e também pela ansiedade de querer engravidar logo.

Apesar de o resultado indicar que Beto estava quase com 3 meses de gestação, a ficha não caiu e o empresário seguiu em dúvida. Ele achava que não havia feto algum em sua barriga.

“Erika e eu tínhamos brigado, estávamos quase um mês sem ter relação. Pensei que poderia ser um cisto”, conta. “Passamos no médico e, no exame de ultrassom, finalmente tivemos a certeza de que era um bebê.”

Quando fizeram a conta, lembraram-se de uma viagem a Fortaleza (CE) e, enfim, tudo se encaixou.

O que muda na gravidez de um homem trans?

Em comparação com uma mulher cis —que se identifica com o gênero de nascimento—, a gestação de um homem trans não tem nenhuma diferença. O único ponto de atenção é que a pessoa gestante, caso faça terapia hormonal, interrompa o uso de testosterona —exatamente como Roberto fez.

Segundo os especialistas, se o homem trans não for amamentar, a hormonização pode ser retomada após o nascimento do bebê, idealmente depois do puerpério —período pós-parto que dura cerca de 45 dias e no qual o corpo passa por mudanças físicas, emocionais e, principalmente, hormonais (por isso é indicado esperar esse momento).

Erika está amamentando Noah: como é possível?

Assim que o casal descobriu a gravidez, no fim de setembro de 2021, Erika pesquisou se existia a possibilidade de ela produzir leite para amamentar. Quando descobriu que a resposta era sim, buscou casos bem-sucedidos. “Não achei mulheres trans que lactaram, mas encontrei médicas que faziam indução da lactação”, conta a empreendedora.

Em conversa com as especialistas, logo perguntou: “Sou uma mulher trans, meu esposo está grávido e eu quero amamentar. É possível?” A médica falou: “Sim, é possível”.

Terapia hormonal impacta fertilidade?

Dúvida de Beto e Erika quando decidiram engravidar, essa é uma pergunta difícil de responder. De acordo com os especialistas consultados, depende muito de cada pessoa.

A terapia hormonal pode, sim, afetar a fertilidade de mulheres e homens trans, mas a ciência não sabe ao certo de que forma —não há estudos suficientes que definam essa resposta.

Acontece que a testosterona bloqueia a produção de estrogênio, hormônio responsável pelo trofismo (tamanho normal) do útero. Por isso que o volume do órgão pode mesmo diminuir. “Poderíamos comparar com a atrofia do útero que acontece após a menopausa, pela ausência do estrogênio”, explica Tavares.

Ao interromper a terapia, o esperado é que o útero volte ao tamanho normal e, após um período (podem ser meses ou anos), o homem trans volta a ovular (mas não necessariamente a menstruar) e, consequentemente, ser fértil —como aconteceu com Roberto.

Mas, segundo Aleide Tavares, ginecologista do Espaço Trans do Hospital das Clínicas da UFPE (Universidade Federal de Pernambuco), da rede Ebserh, o uso prolongado da testosterona realmente pode causar infertilidade provisória ou definitiva em um homem trans. “Mas ainda não sabemos qual fator determina se será temporária ou permanente”, explica.

No caso de uma mulher trans, tanto o bloqueador de testosterona quanto o estrogênio vão alterar a produção de esperma pelo testículo.

“Muitas pacientes relatam que o esperma fica mais fino e mais transparente”, diz Carué Contreiras, médico do CRT Santa Cruz, em São Paulo. “A alteração está relacionada à produção de espermatozoides. Por isso a capacidade de uma mulher trans ou travesti de reproduzir também pode ficar reduzida”, completa.

 

 

Fonte: Uol

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