SÃO PAULO – As revelações feitas pela delegada Ivalda Aleixo, diretora do Departamento Estadual de Homicídios e de Proteção à Pessoa (DHPP), nesta segunda-feira (9), desenham um dos cenários mais sombrios da crônica policial recente de São Paulo. A prisão do piloto Sérgio Antônio Lopes, de 60 anos, descortinou uma rede de abuso sexual infantil que operava com a cumplicidade de quem deveria proteger as vítimas: suas próprias famílias.
O Preço da Inocência
Segundo a delegada, o piloto não agia sozinho. Ele contava com um “catálogo” de imagens enviado por responsáveis legais das crianças e adolescentes. O depoimento de Ivalda Aleixo choca pela frieza dos valores envolvidos.
“Cada imagem recebida gerava pagamentos via Pix, geralmente de R$ 30, R$ 50 ou R$ 100. Em alguns casos, ele comprava medicamentos, pagava aluguel e houve até a compra de uma televisão”, afirmou a delegada durante a coletiva.
O esquema funcionava como uma transação comercial contínua. O piloto se aproximava de mulheres, mães e avós, simulando interesse amoroso para, logo em seguida, deixar claro que seu alvo eram as crianças. A investigação aponta que o silêncio e o aliciamento das vítimas eram comprados com benefícios financeiros e bens de consumo.
Vítimas dentro de casa
A delegada confirmou que, até o momento, dez vítimas já foram identificadas apenas no estado de São Paulo, mas o celular apreendido com o suspeito sugere ramificações em outros estados brasileiros. Entre os casos mais dramáticos, a polícia identificou três irmãs (de 18, 12 e 10 anos) que eram abusadas há anos.
A operação resultou não apenas na prisão do piloto, mas também na captura da avó das três irmãs, Denise Moreo, e de Simone da Silva, mãe de outra vítima que começou a ser explorada aos 11 anos.
A Logística do Crime
A investigação, iniciada em outubro, descobriu que o piloto utilizava documentos de identidade falsos para registrar a entrada das crianças em motéis, burlando a fiscalização. Sérgio mantinha essa rede há pelo menos oito anos, utilizando sua posição social e recursos financeiros para manter a estrutura de exploração.
A Polícia Civil agora foca em identificar para quem esse material era compartilhado e quem eram os outros possíveis compradores dessas imagens. “A investigação não para aqui. O material apreendido é vasto e indica que o número de vítimas pode ser muito maior”, concluiu a diretora do DHPP.





