O sábado, 3 de janeiro de 2026, entrou para a história antes mesmo do sol se pôr. Nos grupos de WhatsApp de venezuelanos que vivem no Brasil, o fluxo de notícias deu lugar a uma enxurrada de figurinhas e memes com os dizeres: “Venezuela Livre”. A notícia da captura de Nicolás Maduro pelo governo americano atravessou a fronteira mais rápido que qualquer transporte, transformando o cansaço do refúgio em uma euforia há muito esquecida.
Em Boa Vista (RR), cidade que abriga o maior contingente de migrantes do país vizinho, o clima é de festa e apreensão. Enquanto grupos organizam carreatas e atos em praças públicas para comemorar o fim de uma era, o silêncio do outro lado da fronteira preocupa quem ainda tem raízes fincadas em solo venezuelano.
Entre a festa e o isolamento
A esperança de “voltar para casa” agora divide espaço com o medo real de um país que amanheceu em estado de sítio. Com as fronteiras fechadas e o sistema de transporte paralisado, muitos brasileiros e venezuelanos radicados no Brasil ficaram “ilhados” dentro da Venezuela.
É o caso de R., que mora no Brasil há uma década. Ela viajou para Ciudad Bolivar para passar o Natal com a irmã doente, sua primeira visita em sete anos. Agora, com o marido e três filhos nascidos no Brasil, ela não sabe como retornará para sua vida em Boa Vista.
“Choramos de emoção. Ninguém dormiu aqui em casa. Mas quem está fora do país pode comemorar; quem está dentro tem que ser cauteloso. O país está em estado de sítio, não tem como sair nem de casa”, relatou R., que pediu anonimato por medo de represálias das forças que ainda ocupam as ruas.
O medo do “pós-Maduro”
A queda do regime trouxe um vácuo de poder que assusta. Relatos de compras compulsivas por medo de desabastecimento e a presença ostensiva das Forças Armadas nas ruas venezuelanas deixam os refugiados em alerta.
Katherine Mota, empreendedora de 31 anos residente em Boa Vista, resume o sentimento de milhares: “É uma mistura de sentimentos”. Embora sinta o alívio da captura, ela monitora o celular a cada minuto em busca de notícias dos parentes.
“As Forças Armadas estão nas ruas e muitos comércios fecharam. Todo mundo tem esperança, mas é um momento de muita incerteza”, conta Katherine. Por sorte, sua mãe e avó estão com ela no Brasil para as festas de fim de ano, mas o retorno delas, previsto para a próxima sexta-feira, agora é uma incógnita.
O que vem a seguir?
Enquanto a comunidade internacional observa os próximos passos em Caracas, em solo brasileiro o desejo de retorno começa a ganhar contornos de plano real. Para muitos, a captura de Maduro é o sinal verde para reconstruir o que foi deixado para trás. Para outros, é apenas o início de uma longa espera para saber se seus entes queridos estarão seguros até que a poeira baixe.
A fronteira entre Brasil e Venezuela permanece como o símbolo desse momento: um portão fechado que separa a alegria de quem já está livre da angústia de quem ainda aguarda o amanhã.






