Uma tragédia abalou a comunidade de Itaguaí, na Baixada Fluminense, nesta semana. Miguel de Jesus Silva, um menino de apenas 13 anos, morreu na noite de terça-feira (5 de novembro de 2025) após ser picado por uma cobra venenosa enquanto brincava no quintal de casa, no bairro de Vala Vala. O caso, que chocou familiares e vizinhos, reacende o debate sobre a preparação do sistema de saúde para emergências com animais peçonhentos em regiões próximas a áreas de mata.
Segundo relatos da família, Miguel foi mordido na tarde de ontem e levado às pressas para o Hospital Municipal São Francisco Xavier, a unidade de saúde mais próxima. Os parentes afirmam que, ao chegarem, os médicos inicialmente duvidaram da versão da picada e que houve uma demora significativa no atendimento. “Eles não acreditaram na gente de primeira. Meu sobrinho já estava sofrendo, e o soro não tinha ali”, desabafou uma tia de Miguel em entrevista ao G1. O menino chegou a sofrer múltiplas paradas cardíacas durante o socorro e, apesar dos esforços da equipe, não resistiu, falecendo por volta das 20h.
A certidão de óbito registrada aponta como causas da morte insuficiência cardiorrespiratória aguda, edema pulmonar e hemorragia digestiva – complicações típicas de envenenamento ofídico grave, quando o antídoto não é administrado a tempo. A família, ainda em luto, cobra investigação sobre o ocorrido e justiça para o que consideram negligência médica.
Em nota oficial, o Hospital Municipal São Francisco Xavier rebateu as acusações. A unidade informou que Miguel deu entrada na emergência já em estado crítico: inconsciente, taquicárdico e sem resposta a estímulos neurológicos. “O paciente foi atendido imediatamente conforme o protocolo para acidentes com animais peçonhentos. O soro antiofídico, que não é estocado rotineiramente na unidade por não ser de obrigatoriedade municipal, foi solicitado e obtido com rapidez junto ao Hospital Municipal Pedro Segundo, em Santa Cruz. Infelizmente, o quadro evoluiu de forma irreversível”, diz o comunicado assinado pela direção.
O caso ganha contornos ainda mais graves à luz de uma lei estadual sancionada em maio de 2025 pelo governador Cláudio Castro (PL), que determina que todas as unidades de saúde públicas e privadas, bem como parques florestais do estado do Rio de Janeiro, mantenham estoques de soro antiofídico disponíveis 24 horas por dia. A norma visa prevenir mortes como essa, especialmente em municípios como Itaguaí, onde a proximidade com rios e vegetação nativa aumenta o risco de encontros com serpentes como jararacas ou cascavéis. Especialistas em saúde pública questionam se a implementação da lei está sendo fiscalizada adequadamente pela Secretaria de Estado de Saúde (SES-RJ), que ainda não se manifestou sobre o episódio.
A morte de Miguel não é isolada. Dados do Ministério da Saúde revelam que o Brasil registra cerca de 30 mil acidentes ofídicos por ano, com taxa de letalidade de 0,5% – mas que sobe drasticamente em áreas rurais sem acesso rápido a antídotos. No Rio, foram 1.200 notificações em 2024, com pelo menos cinco óbitos. Organizações como a Sociedade Brasileira de Toxicologia cobram mais investimentos em treinamento de equipes médicas e distribuição de soros, produzidos pelo Instituto Vital Brazil.
A família de Miguel, que descreve o menino como “alegre e cheio de sonhos, apaixonado por futebol”, iniciou uma vaquinha online para custear o funeral e apoio psicológico aos parentes. Vizinhos organizam uma vigília na comunidade nesta sexta-feira (8), exigindo melhorias na saúde local. O Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MPRJ) foi acionado e pode abrir inquérito para apurar responsabilidades.
Essa perda irreparável serve como alerta: em um país com rica biodiversidade, mas desigualdades gritantes no SUS, cada minuto conta na luta pela vida. Que a memória de Miguel impulsione mudanças reais e salve outras crianças.





