Manaus | 26 de julho de 2026 | 20:27:31

“Rachadinha institucionalizada”: esquema de vereador mostra nova face da velha política

A investigação que levou à prisão do vereador Rosinaldo Bual (Agir), suspeito de liderar um esquema de “rachadinha” em seu gabinete na Câmara Municipal de Manaus (CMM), escancara uma realidade preocupante: a facilidade com que estruturas públicas podem ser manipuladas para práticas criminosas com o uso indiscriminado de cargos comissionados e a falta de fiscalização efetiva sobre a atividade parlamentar.

De acordo com o Ministério Público, o esquema envolvia a nomeação de até 50 assessores, número muito superior ao necessário para um gabinete parlamentar. Muitos sequer apareciam para trabalhar ou exerciam funções incompatíveis com cargos públicos. A remuneração, no entanto, era dividida: até 50% do salário era devolvido ao vereador, por meio de repasses controlados por pessoas de confiança dentro da própria equipe.

Mais que uma “rachadinha”: estrutura pensada para lavar dinheiro

O caso chama atenção não apenas pelo volume de assessores e valores desviados, mas pelo nível de sofisticação da estrutura montada para ocultar os recursos. Segundo os promotores, os valores eram distribuídos entre um grupo restrito e depois reinseridos no patrimônio do vereador. Cofres com dinheiro em espécie, cheques, passaportes e movimentações bancárias suspeitas indicam não apenas apropriação indébita de salários, mas lavagem de dinheiro em larga escala.

Em um dos cofres, aberto com apoio do Corpo de Bombeiros após recusa do vereador em fornecer a senha, foram encontrados R$ 390 mil em espécie, além de dois cheques que somam mais de R$ 500 mil. A chefe de gabinete, apontada como braço direito de Rosinaldo, teria coordenado os contatos com os assessores e a cobrança sistemática dos repasses.

Falta de controle interno e cultura da impunidade

O caso levanta uma discussão urgente sobre a fiscalização dos gabinetes parlamentares e o uso político dos cargos comissionados. Sem mecanismos de controle transparentes, vereadores mantêm estruturas inchadas com pouca ou nenhuma prestação de contas. A rotatividade alta de servidores, uma das características citadas pelos investigadores também dificulta o rastreamento de responsabilidades e alimenta a sensação de impunidade.

Apesar de a prática da “rachadinha” não ser novidade no cenário político brasileiro, o caso Rosinaldo destaca a necessidade de revisar normas internas da Câmara, implementar sistemas de controle efetivos e ampliar a transparência no uso de recursos humanos e financeiros dos gabinetes.

R$ 2,5 milhões bloqueados e denúncia à vista

A Justiça determinou o afastamento do vereador por 120 dias, a quebra dos sigilos bancário e telemático, e o bloqueio judicial de R$ 2,5 milhões, valor estimado para ressarcimento aos cofres públicos. Segundo o Ministério Público, a denúncia formal deve ser apresentada na próxima semana.

Para o promotor Leonardo Tupinambá, do Gaeco, o caso evidencia como a estrutura pública pode ser aparelhada para o enriquecimento pessoal. “Era um gabinete que operava como uma engrenagem para movimentar dinheiro de forma ilícita”, afirmou em coletiva.

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