Uma quadrilha comandada por um autointitulado pastor foi desmascarada pela Polícia Civil e pelo Ministério Público em uma operação que expôs o lado mais perverso do uso da fé como moeda. No centro do escândalo está Luiz Henrique Santini, líder da chamada Igreja Casa dos Milagres, localizada em São Gonçalo (RJ). Ele é apontado como o mentor de um golpe religioso milionário que movimentou mais de R$ 3 milhões em dois anos — tudo em nome de promessas de curas, bênçãos e “vitórias divinas”.
Segundo as investigações da 76ª DP, Santini estruturou um verdadeiro call center da fé no centro de Niterói, onde até 42 pessoas foram contratadas para simular atendimentos religiosos via WhatsApp. Os atendentes, sem qualquer ligação com a igreja, usavam áudios gravados do suposto pastor para convencer fiéis a realizar transferências bancárias, via Pix, em troca de orações específicas — com valores que variavam entre R$ 20 e R$ 1.500, dependendo do “grau do milagre” solicitado.
“Pix da Vitória”: fé virou meta de arrecadação
Em meio às apreensões, a polícia encontrou quadros de metas, cadernos de fiéis pagantes, e a assustadora expressão “Pix da Vitória” usada internamente como símbolo de sucesso financeiro da equipe. Cada oração enviada era, na verdade, uma resposta automática a mais um depósito recebido.
“Era uma fé tarifada. Quanto mais você pagava, maior era o milagre prometido”, comentou um dos investigadores.
A rotina do call center lembrava o funcionamento de uma empresa de telemarketing agressivo. Os “atendentes de Deus” eram cobrados diariamente: cada um deveria arrecadar no mínimo R$ 500 por dia. Quem não batia a meta era dispensado.
Esquema profissional: 52 celulares, 149 chips e rede de laranjas
A operação, batizada de “Blasfêmia”, foi deflagrada no dia 24 de setembro. Agentes apreenderam 52 celulares, seis notebooks, 149 chips de celular e documentos que comprovaram o alcance nacional da fraude. As transferências vinham de fiéis de diferentes estados, atraídos por vídeos e mensagens circulando nas redes sociais.
Para lavar o dinheiro, o grupo utilizava uma rede de contas bancárias em nome de laranjas. O total desviado ultrapassa R$ 3 milhões.
Santini e mais 22 denunciados: tornozeleira e bloqueio de bens
O inquérito foi aberto em fevereiro, após denúncias e o flagrante do call center em operação. Luiz Henrique Santini foi denunciado com outros 22 integrantes da quadrilha. Hoje, ele está monitorado por tornozeleira eletrônica e responde em liberdade, enquanto a justiça promove o bloqueio de contas bancárias e o sequestro de bens.
A fé como fachada para o lucro
O caso levanta um alerta sobre como a fé pode ser manipulada como ferramenta de exploração. Milhares de vítimas acreditaram nas mensagens de “cura divina”, enviadas por um pastor que nunca nem ouviu suas vozes, mas ouviu bem o som do Pix caindo.
A polícia continua as investigações para localizar novas vítimas e outros possíveis envolvidos na organização criminosa.






