Manaus | 8 de agosto de 2026 | 05:53:18

“Adeus ao Feijão, Olá às Doenças?”: Queda no consumo do grão preocupa especialistas e pode estar ligada ao avanço de doenças crônicas no Brasil

Uma mudança silenciosa no hábito alimentar da população brasileira pode estar por trás do aumento expressivo de doenças crônicas no país. Um estudo realizado por pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) revelou que o consumo regular de feijão caiu de forma significativa entre 2006 e 2023 e essa tendência acompanha uma alta preocupante nos índices de obesidade, hipertensão e diabetes.

A pesquisa, baseada em dados da Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel), analisou mais de 800 mil entrevistas realizadas nas capitais brasileiras ao longo de 17 anos. O levantamento observou que, à medida que o feijão deixa de ser um item presente na mesa das famílias, cresce o consumo de produtos ultraprocessados e, com eles, os problemas de saúde.

Queda significativa no consumo

Os dados revelam que o consumo regular de feijão caiu entre ambos os sexos. Entre as mulheres, a frequência de consumo passou de 61% para 54,1%. Entre os homens, a queda foi de 73,7% para 63,8%.

De acordo com Deborah Malta, médica epidemiologista e coordenadora da pesquisa, essa mudança reflete um padrão alimentar cada vez mais afastado das bases da alimentação saudável. Para a especialista, o feijão é um marcador importante de uma dieta equilibrada, e sua ausência pode indicar maior ingestão de alimentos industrializados.

“A redução de um marcador de alimentação saudável como é o feijão, aliado à estabilidade no consumo de frutas e verduras, está altamente associada à obesidade e à hipertensão”, afirma.

Aumento das doenças crônicas

Ao longo do mesmo período analisado pela pesquisa, os índices de obesidade, diabetes tipo 2 e hipertensão cresceram consideravelmente entre os brasileiros. Os pesquisadores apontam uma relação direta entre essas doenças e a mudança nos hábitos alimentares da população.

O afastamento da alimentação tradicional, baseada em alimentos frescos e minimamente processados, tem dado lugar a dietas ricas em produtos ultraprocessados, pobres em nutrientes e altamente calóricos.

Por que o feijão está desaparecendo?

A pesquisa da UFMG identificou três fatores principais que ajudam a explicar a queda no consumo do feijão:

  1. Percepção equivocada sobre calorias

Muitos consumidores têm evitado o feijão por considerá-lo calórico ou engordativo. Essa percepção tem sido influenciada por dietas da moda, especialmente aquelas que restringem carboidratos, e afasta as pessoas de alimentos tradicionais e nutritivos.

  1. Tempo de preparo

O feijão exige planejamento e tempo de cozimento, o que se torna um obstáculo em rotinas cada vez mais aceleradas. A praticidade, hoje, é um dos principais critérios na escolha alimentar da população.

“Cada vez mais as pessoas comem fora e não têm tempo para o preparo do alimento em casa”, observa Deborah Malta.

  1. Substituição por alimentos ultraprocessados

A principal ameaça, segundo especialistas, é a substituição do feijão por produtos ultraprocessados, como macarrão instantâneo, embutidos, salgadinhos, biscoitos recheados e refrigerantes.

Esses produtos são desenvolvidos para serem altamente palatáveis e de preparo rápido, mas seu consumo contínuo está diretamente relacionado ao aumento de doenças crônicas e à má qualidade nutricional da dieta.

O impacto dos ultraprocessados

De acordo com o Guia Alimentar para a População Brasileira, alimentos ultraprocessados são formulações industriais que combinam ingredientes extraídos de alimentos, como açúcares e gorduras, com substâncias produzidas em laboratório, como aromatizantes, corantes e realçadores de sabor.

Esses produtos, embora práticos, têm alto teor calórico e são pobres em fibras, vitaminas e minerais. São também reconhecidos por interferirem na regulação do apetite, favorecendo o consumo excessivo e contribuindo para o ganho de peso.

Durval Ribas Filho, médico nutrólogo e presidente da Associação Brasileira de Nutrologia (ABRAN), alerta para os riscos dessa substituição alimentar.

“A alimentação tradicional brasileira, baseada em arroz, feijão e hortaliças, é uma estratégia eficaz, acessível e culturalmente enraizada para prevenir doenças crônicas e promover a saúde pública”, defende.

Um chamado à valorização da alimentação tradicional

A pesquisa reforça a importância da retomada da alimentação caseira e da valorização de alimentos típicos da cultura alimentar brasileira. Além de nutritivo, o feijão é uma fonte rica em fibras, ferro, potássio e magnésio, sendo essencial para a prevenção de doenças cardiovasculares, controle da glicemia e saciedade.

“A tendência observada nos dados mostra uma redução do saudável e um aumento dos ultraprocessados. Isso justifica o crescimento das doenças crônicas. Precisamos revalorizar a alimentação tradicional e estimular o preparo caseiro, visando a melhoria da saúde da população”, conclui Deborah Malta.

O que os dados mostram

O consumo regular de feijão caiu entre homens e mulheres entre 2006 e 2023

A queda coincide com o aumento de doenças crônicas como obesidade, diabetes e hipertensão

A substituição por ultraprocessados é apontada como uma das principais causas

Especialistas defendem a retomada da alimentação tradicional brasileira

Menos feijão, mais doenças. Será coincidência ou reflexo direto de escolhas alimentares cada vez mais distantes da comida de verdade?

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