O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), mergulhou de vez nas articulações em Brasília para viabilizar uma anistia ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), como parte de uma estratégia para destravar seu próprio caminho rumo à Presidência da República em 2026.
A proposta envolve integrantes do centrão e busca conceder perdão a Bolsonaro após uma eventual condenação pelo Supremo Tribunal Federal (STF), mas mantendo o ex-presidente inelegível e fora da corrida eleitoral. O texto da anistia ainda está sendo elaborado, e os detalhes do acordo político não estão fechados, incluindo uma possível negociação com ministros do STF para que a medida não seja barrada pela Corte.
Anistia em troca de apoio
Tarcísio, que resistia a se envolver diretamente nesse processo, passou a atuar mais ativamente após uma visita de duas horas a Bolsonaro, em sua prisão domiciliar. A conversa reservada selou o início da ofensiva pró-anistia, que ganhou corpo nas semanas seguintes. O movimento é visto como uma tentativa de reduzir a resistência do bolsonarismo mais radical à candidatura do governador.
Segundo aliados, o apoio de Bolsonaro e de seus filhos seria uma condição imposta por Tarcísio para assumir o protagonismo nesse cenário. A anistia, além de atender a uma demanda central do bolsonarismo, pode ser usada como moeda de troca para consolidar o apoio político à sua pré-candidatura ao Planalto.
Articulação avança no Congresso
Lideranças do centrão afirmam que o clima no Congresso mudou após o envolvimento direto de Tarcísio. O presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), que antes resistia a pautar o projeto, agora sinaliza que a proposta pode ser votada logo após o julgamento de Bolsonaro no STF, previsto para terminar em 12 de setembro. O requerimento de urgência deve ser analisado já na próxima semana.
O líder do PL, Sóstenes Cavalcante (RJ), afirmou que Motta já comunicou aos líderes que a maioria está formada e que a proposta será pautada. Já o líder do PT, Lindbergh Farias, criticou duramente a articulação, atribuindo seu avanço a uma “jogada política” de Tarcísio para se firmar como nome viável para 2026. “A coisa ficou séria”, afirmou o petista.
Riscos e entraves
Apesar do avanço político, o maior desafio para os defensores da anistia é evitar que ela seja considerada inconstitucional pelo STF. Por isso, há um esforço em curso para convencer ministros da Corte a não derrubarem a medida, caso aprovada pelo Congresso.
No cenário atual, o projeto não trata diretamente da inelegibilidade de Bolsonaro, consequência de condenações por abuso de poder político e econômico nas eleições de 2022, mas advogados do ex-presidente já estudam maneiras de usar a anistia como argumento em recursos futuros no TSE.
Mesmo assim, a proposta é vista por muitos como mais simbólica do que efetiva: serviria para demonstrar o alinhamento de Tarcísio com as pautas caras ao bolsonarismo, ainda que não reverta diretamente a situação eleitoral do ex-presidente.
Apoio de peso e mudança de cenário
A negociação pela anistia conta com o respaldo de líderes de alguns dos principais partidos do Congresso, como Ciro Nogueira (PP), Valdemar Costa Neto (PL), Antonio Rueda (União Brasil) e Marcos Pereira (Republicanos). De acordo com relatos, o grupo acredita já ter cerca de 300 votos favoráveis na Câmara.
Com o centrão desembarcando gradualmente do governo Lula, o ambiente político se tornou mais favorável à votação. A federação formada por União Brasil e PP, inclusive, declarou que seus filiados com cargos no governo devem entregá-los, e já anunciou apoio à anistia, inclusive para Bolsonaro.
O líder do União Brasil na Câmara, Pedro Lucas Fernandes (MA), afirmou que há negociações com Motta para pautar o projeto “o mais breve possível” e que não está descartada a possibilidade de incluir no relatório a reversão da inelegibilidade de Bolsonaro.





