A moradia no Brasil está mudando e rapidamente. Em 2024, 46,5 milhões de brasileiros viviam em imóveis alugados, segundo dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Isso representa quase 22% da população do país, mais gente do que todo o estado de São Paulo.
Essa é a maior marca da série histórica iniciada em 2016, quando 17,2% da população vivia de aluguel. Em apenas oito anos, o número de inquilinos cresceu quase 33%.
Queda na casa própria
Enquanto mais brasileiros alugam, menos conseguem quitar a casa própria. A proporção de lares com imóveis quitados caiu de 62,5% em 2023 para 61,6% em 2024, o menor índice da série. Em números absolutos, 52,3 milhões de domicílios são próprios (já pagos ou em financiamento), abrigando 146,2 milhões de pessoas menos do que em 2016, quando eram 150,6 milhões.
Segundo o pesquisador do IBGE William Kratochwill, esses dados revelam uma carência estrutural de políticas públicas habitacionais: “Se não se cria oportunidade para a população adquirir o seu imóvel, e a pessoa continua querendo sua independência, como faz isso sem conseguir comprar um bem? Tem de partir para o aluguel”, afirma.
Mais apartamentos, mais solidão
Outro fenômeno relacionado à nova realidade habitacional brasileira é o crescimento dos domicílios unipessoais (com apenas um morador), que quase dobraram em 12 anos: de 7,5 milhões em 2012 para 14,4 milhões em 2024. Quase 40% dessas pessoas que vivem sozinhas têm mais de 60 anos.
Ao mesmo tempo, o país está trocando casas por apartamentos. Pela primeira vez, os apartamentos representam mais de 15% das moradias brasileiras outro recorde.
“As pessoas querem morar perto do trabalho e de serviços urbanos, mas o território é limitado. A verticalização é a resposta”, explica Kratochwill.
A busca por segurança também influencia: condomínios com estrutura de lazer e proteção se tornam mais atrativos do que casas em bairros menos seguros.
O que cabe no lar brasileiro
A pesquisa do IBGE também mostrou que a máquina de lavar roupa já está em 70,4% dos lares, um percentual maior que o de carros (48,8%) e motos (25,7%). A única presença mais comum é a da geladeira (98,3%).
A posse da máquina é um reflexo direto do aumento de renda, diz o IBGE: mais conforto e praticidade na rotina doméstica. No Sul do país, 90% das casas já têm o equipamento; no Nordeste, apenas 40,5%.
Onde mais se mora de aluguel?
Centro-Oeste: 29,8% dos moradores vivem em aluguel (o maior índice do país)
Sudeste: 24,1%
Sul: 21,2%
Nordeste: 19,6%
Norte: 15,3% (menor índice)
O que esses números nos dizem?
Morar de aluguel, viver sozinho, habitar um apartamento pequeno para milhões de brasileiros, isso deixou de ser uma escolha e virou a única alternativa possível.
Em meio à ausência de políticas habitacionais efetivas e à alta nos preços dos imóveis, o sonho da casa própria vai ficando mais distante para muitos.
A pergunta que fica é: o Brasil está fadado a se tornar uma nação de inquilinos?





