A presença de usuários de crack em situação de rua tem se intensificado em diversos bairros de Manaus, levando a uma crescente preocupação entre moradores, comerciantes e autoridades. Regiões como Vila da Prata, São Jorge, Compensa e até o Centro Histórico passaram a registrar pontos fixos de consumo e venda da droga, em estruturas que lembram as chamadas “cracolândias”.
As cenas de uso a céu aberto, barracos improvisados e relatos de furtos têm sido constantes nas zonas Oeste e Central da cidade. Ao longo do Igarapé do Franco, por exemplo, é comum ver usuários agrupados em áreas públicas, onde passam dias seguidos consumindo entorpecentes.
Expansão silenciosa
No Centro, locais como a Praça da Matriz, a Praça dos Remédios e as ruas José Clemente, Miranda Leão e Leovegildo Coelho foram citadas por comerciantes e moradores como pontos de aglomeração de usuários e atuação de traficantes. A sensação de insegurança cresce, e o impacto no comércio local é visível: donos de lojas relatam quedas de até 90% nas vendas.
Uma comerciante da José Clemente, que preferiu não se identificar, contou que já flagrou usuários invadindo seu estabelecimento. “A gente não sabe mais o que fazer. Eles estão por toda parte, entram nas lojas, brigam entre si. É um risco abrir a porta”, disse.
Ação do crime organizado
De acordo com o coronel da Polícia Militar, Amadeu Soares, há indícios de que o avanço dessas cracolândias é incentivado por facções criminosas. A tática envolve expulsar moradores, desvalorizar áreas e usar os locais como ponto de comércio e domínio territorial. “Não se trata apenas de usuários. Há uma ocupação criminosa em curso”, afirmou.
Para ele, ações pontuais de repressão não bastam. É preciso uma atuação integrada entre forças de segurança e assistência social. “Não adianta só prender. Tem que ocupar e dar alternativa para essas pessoas saírem do vício.”
O drama dos usuários
Entre os próprios dependentes, há relatos de abandono e vício crônico. Um deles, identificado como “Mário”, contou que começou a usar crack aos 13 anos. Hoje, vive entre a rua e a casa da mãe. “Fico dois, três dias fora. Já roubei para usar, sim. A gente não vê saída”, disse.
Muitos montam barracos às margens de avenidas como a Brasil, no bairro Compensa, onde improvisam moradias. A presença constante de menores de idade também preocupa.
Especialistas e lideranças locais cobram políticas públicas integradas. Segundo eles, o avanço das cracolândias em Manaus não é mais um problema restrito ao centro da cidade, e sim um reflexo da falta de ações estruturantes de saúde, moradia e acolhimento.
“A abordagem precisa ser intersetorial: polícia, assistência social, saúde mental. Do contrário, vamos continuar enxugando gelo”, afirmou uma fonte ligada ao Conselho Municipal de Políticas sobre Drogas.







