Harley Sandoval, um pastor evangélico, corretor de imóveis e empresário de mineração, foi preso em julho de 2023 por exportar ilegalmente 294 quilos de ouro da Amazônia brasileira para os Estados Unidos, Dubai e Itália.
No papel, o ouro teria sido extraído de um prospecto legal do qual Sandoval possuía licença para minerar no estado norte de Tocantins. Porém, a polícia afirmou que não se extraiu uma única onça de ouro naquele local desde os tempos coloniais. Utilizando tecnologia forense de ponta, juntamente com imagens de satélite, a Polícia Federal do Brasil afirmou que foi capaz de estabelecer que o ouro exportado não veio do prospecto de Tocantins. Em vez disso, ele foi extraído de três diferentes garimpos ilegais no estado vizinho do Pará, alguns localizados em terras indígenas protegidas, de acordo com documentos judiciais datados de novembro de 2023, vistos pela Reuters. A acusação é uma das primeiras no Brasil a usar a nova tecnologia para combater o comércio clandestino, que pode representar até metade da produção de ouro do país, um dos maiores produtores e exportadores do metal precioso. A mineração ilegal de ouro tem aumentado em milhares de pontos na floresta amazônica, trazendo destruição ambiental e violência criminal à região.
As apreensões de ouro extraído ilegalmente aumentaram sete vezes nos últimos sete anos, de acordo com registros da Polícia Federal obtidos com exclusividade pela Reuters. Sandoval, que foi liberado para aguardar o julgamento e continua a pregar com sua esposa em uma igreja evangélica pentecostal na cidade central de Goiânia, nega as acusações. Ele afirma que não é possível determinar de onde o ouro foi extraído depois de derretido em barras para exportação.
“Isso é impossível. Para exportar ouro, sempre é necessário derretê-lo”, disse ele à Reuters por telefone.
O DNA do Ouro
Historicamente, o ouro é notoriamente difícil de rastrear, especialmente depois que o metal de diferentes fontes é derretido junto, apagando as assinaturas originais. Após isso, pode ser facilmente negociado como um ativo financeiro ou utilizado na indústria de joias.
No entanto, os investigadores afirmam que isso está começando a mudar. Um programa policial chamado “Targeting Gold” está criando um banco de dados com amostras de todo o Brasil, que são analisadas com exames de radioisótopos e espectroscopia de fluorescência para determinar a composição única de elementos.
A técnica, utilizada há muito tempo na arqueologia, foi pioneira na mineração pelo geólogo da Universidade de Pretória, Roger Dixon, para ajudar a distinguir entre ouro legal e roubado. O programa, desenvolvido em parceria com pesquisadores universitários, inclui o uso de potentes feixes de luz de um acelerador de partículas em um laboratório de São Paulo para estudar impurezas em nanoescala associadas ao ouro, como terra ou outros metais, como chumbo ou cobre, que ajudam a rastrear suas origens.
Humberto Freire, diretor do recém-criado Departamento de Meio Ambiente e Amazônia da Polícia Federal, afirmou que a tecnologia permite que os cientistas analisem “o DNA do ouro brasileiro.”
“A natureza marcou o ouro com isótopos e podemos ler essas impressões digitais únicas com exames de radioisótopos”, disse Freire. “Com essa ferramenta, podemos rastrear o ouro ilegal antes que ele seja refinado para exportação.”
O programa ajudou a aumentar as apreensões de ouro desde que o presidente de esquerda Luiz Inácio Lula da Silva assumiu o cargo no ano passado — um aumento de 38% em 2023 em comparação com 2022, segundo dados do governo vistos pela Reuters. Novas regulamentações do mercado de ouro do Banco Central do Brasil, incluindo recibos eletrônicos obrigatórios para todas as transações e o monitoramento mais rigoroso de transações suspeitas, também contribuíram para esse aumento, de acordo com Freire.
“Estima-se que cerca de 40% do ouro extraído na Amazônia seja ilegal”, disse ele à Reuters. O Brasil exportou 110 toneladas de ouro em 2020, no valor de US$ 5 bilhões, segundo dados oficiais, classificando-se entre os 20 maiores exportadores do mundo. No ano passado, as exportações caíram para 77,7 toneladas, uma queda que o governo atribui ao aumento na fiscalização da mineração ilegal.





