Manaus | 21 de agosto de 2026 | 08:41:26

Vale a pena investir no Dólar com a moeda em alta?

Em tempos de incerteza econômica, muitos investidores buscam proteger seus portfólios com ativos em moeda estrangeira. A ideia de dolarizar a carteira, ou seja, alocar recursos em ativos denominados em dólares, surge como uma alternativa para reduzir os impactos da volatilidade do mercado. Contudo, nem todas as carteiras estão preparadas para esse movimento, e a necessidade de estratégias de proteção só costuma ser percebida quando o mercado apresenta dificuldades — como o recente valor do dólar, que já ultrapassou os R$ 6,00.

A pergunta que muitos se fazem, então, é se vale a pena dolarizar a carteira com o dólar em alta, especialmente quando a renda fixa brasileira oferece rendimentos ao redor de 14% ao ano. A resposta não é simples, mas o conceito de dolarizar vai além de simplesmente comprar dólares. Trata-se de direcionar o capital para fundos, títulos ou ações denominadas em dólares, no mercado internacional.

A situação econômica brasileira, marcada pela desconfiança com relação ao pacote de corte de gastos e ao anúncio de isenção de imposto de renda pelo ministro da Fazenda, Fernando Haddad, em 27 de novembro, resultou na desvalorização do real e no aumento do dólar, que atingiu seu valor mais alto, chegando a R$ 6,10. Esse cenário, porém, não deve ser o principal fator para a decisão de dolarizar ou não a carteira de investimentos. Para especialistas, a dolarização deve ser encarada como uma estratégia de diversificação, não como uma especulação cambial.

William Castro Alves, estrategista-chefe da Avenue, enfatiza que o objetivo da dolarização é diluir os riscos geográficos, políticos e econômicos de um único país. A diversificação para o mercado internacional oferece uma forma de mitigar os riscos, independentemente das flutuações cambiais.

Rodrigo Sgavioli, head de alocação da XP, reforça que, no longo prazo, o impacto do preço do dólar é menor quando o foco é a proteção contra riscos estruturais. “Investir no exterior não deve ser visto como uma reação a crises momentâneas, mas como uma forma de participar de mercados globais e da transformação do capitalismo nas próximas décadas”, afirma. Ele compara a decisão de investir no exterior a uma viagem de férias: se encontrar uma boa promoção, melhor, mas caso contrário, a viagem acontece de qualquer forma.

Arley Matos, estrategista de investimentos do Santander, compartilha dessa visão. Ele acredita que, apesar da Selic alta garantir bons retornos na renda fixa, a exposição à desvalorização do real continua sendo uma preocupação. Matos sugere que uma alternativa para quem quer mitigar os efeitos cambiais é investir em fundos internacionais ou ETFs que replicam ativos dolarizados, especialmente para quem não deseja comprar diretamente dólares.

Além de preservar o patrimônio, a dolarização pode ajudar a compensar perdas no poder de compra causadas pela inflação e pela flutuação do real. De acordo com o Centro de Estudos em Finanças da FGV-EASP, mais de 10% dos produtos consumidos no Brasil, como trigo, combustível e papel, são indexados ao dólar. Esse impacto é ainda mais significativo para famílias de renda baixa, cuja cesta básica é mais sensível ao câmbio. Enquanto as famílias de renda mais alta enfrentam uma exposição de cerca de 11% aos efeitos da variação cambial, as de renda mais baixa podem chegar a 14%.

Pesquisadores recomendam que, para uma proteção eficaz, o investidor brasileiro deveria ter entre 16% e 18% de seus investimentos em ativos dolarizados. Contudo, se o seu perfil de investimento for conservador, a volatilidade do câmbio pode representar um risco maior, e a dolarização pode não ser a melhor escolha. A flutuação do preço de ativos em dólar, como ações e ETFs, pode aumentar a volatilidade de sua carteira, o que precisa ser levado em consideração na hora de diversificar.

Portanto, embora o dólar esteja em alta, a decisão de dolarizar a carteira deve ser tomada com base no perfil de risco do investidor e nos objetivos de longo prazo, e não apenas como uma reação imediata a flutuações cambiais.

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