A nova série da Netflix sobre Ayrton Senna, uma das figuras mais icônicas do Brasil, trouxe à tona memórias do lendário piloto de Fórmula 1, mas também reacendeu debates sobre quem tem o direito de contar essa história. Entre os muitos aspectos abordados na produção, um detalhe chamou atenção: Adriane Galisteu, companheira de Senna nos últimos anos de sua vida, teve apenas 1 minuto e 33 segundos de menção.
Essa escolha narrativa é um reflexo direto da postura histórica da família de Senna, que nunca aceitou plenamente a presença de Adriane. A ausência dela na série, ou sua mínima aparição, não é apenas uma questão editorial, mas um exemplo de como mulheres são frequentemente excluídas ou minimizadas em histórias que também pertencem a elas. E a pergunta que fica é: por quê?
Adriane Galisteu não era apenas uma namorada. Ela foi parte de um momento crucial na vida de Ayrton Senna, acompanhando-o em seus últimos dias, oferecendo apoio emocional e dividindo experiências que, sem dúvida, marcaram ambos profundamente. No entanto, por ser considerada “inconveniente” ou “fora do padrão” para os olhos da sociedade e, principalmente, para os círculos familiares, sua relevância foi apagada.
O apagamento das mulheres nas narrativas
Esse caso não é isolado. É um reflexo de uma sociedade que, repetidas vezes, exclui mulheres de narrativas históricas quando sua presença desafia normas sociais ou desagrada aos “controladores” da história. Em muitas esferas, o valor de uma mulher ainda é medido pela aceitação que ela recebe da sociedade – ou de uma família. Adriane era jovem, despretensiosa, sem as conexões que agradariam a um círculo elitista. E isso foi suficiente para que sua importância na vida de Ayrton Senna fosse minimizada.
Esse apagamento não é apenas uma questão pessoal; é um problema estrutural. Histórias são narradas de forma seletiva, e as mulheres que ocupam espaços não conformistas – ou que incomodam por qualquer motivo – frequentemente perdem seu lugar nessas narrativas.
Por que isso ainda incomoda?
A questão de dar voz a Adriane Galisteu – e a tantas outras mulheres – não é sobre romantizar ou idealizar sua relação com Ayrton Senna, mas sim reconhecer que ela viveu essa história. É seu direito fazer parte dela. Incomoda tanto dar espaço a mulheres em suas próprias jornadas porque isso desestabiliza narrativas tradicionais, aquelas construídas para agradar ou preservar certas convenções.
No caso de Senna, o apagamento de Adriane reflete um esforço para proteger uma imagem pública idealizada, que talvez não tenha espaço para uma mulher fora do molde esperado. Mas por que essa narrativa precisa ser controlada a ponto de excluir quem fez parte dela?
A reflexão necessária
No TPM – Tudo Pelas Mulheres, acreditamos que essa polêmica vai além de Adriane Galisteu e Ayrton Senna. É sobre o direito de todas as mulheres de serem lembradas e reconhecidas em suas próprias histórias. É sobre a urgência de questionarmos quem tem o poder de contar essas histórias e por que tantas vezes elas são moldadas para excluir.
Enquanto continuarmos apagando ou minimizando mulheres como Adriane Galisteu, estaremos perpetuando uma cultura que mede o valor feminino pela conveniência e aceitação social. A série da Netflix é mais uma oportunidade perdida de revisitar uma história com verdade e completude, reconhecendo as pessoas que fizeram parte dela, independentemente de serem ou não “aceitas” por quem controla a narrativa.
Adriane não é uma figura à parte. Ela é parte da história de Ayrton Senna. E a questão que fica é: até quando vamos apagar mulheres das histórias que viveram? Afinal, contar uma história completa não é apenas uma questão de justiça, mas de humanidade.





