Manaus | 24 de julho de 2026 | 08:13:07

Por que mulheres sentem alívio ao saber que não serão atendidas por homens?

A sensação de segurança ou insegurança assume formas radicalmente diferentes dependendo de quem você é. Enquanto para os homens o risco nas ruas e em locais públicos está relacionado, principalmente, a crimes como homicídios, para as mulheres a insegurança se estende a espaços que deveriam ser seguros, como sua própria casa, o local de trabalho ou até mesmo uma corrida em um carro de aplicativo. Segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2023, os homens representam 99,3% das mortes violentas intencionais, enquanto as mulheres são as principais vítimas de violência sexual, agressões domésticas e feminicídios, com 63% desses crimes acontecendo dentro de suas próprias casas.

Por que a violência contra as mulheres é dispersa e omnipresente?

No Brasil, a violência contra mulheres não se restringe a locais ou momentos específicos, mas permeia cada aspecto da vida cotidiana. A experiência de entrar em um carro de aplicativo, ir a uma consulta médica ou simplesmente caminhar na rua vem acompanhada de uma constante sensação de alerta. O que para muitos homens é uma atividade rotineira, para as mulheres é cercada de cautela e estratégias de autoproteção. Segundo dados, 90% dos feminicídios são cometidos por homens próximos das vítimas — parceiros, ex-parceiros ou familiares. Esse risco invisível afeta diretamente a maneira como as mulheres navegam no mundo, condicionando-as a estarem sempre vigilantes.

Vivemos em um país perigoso para todos. Mas o que fica fora das estatísticas de segurança pública?

A violência contra as mulheres é amplificada por fatores de gênero e contexto social, como raça, classe e maternidade, elementos que raramente são considerados nas políticas públicas de segurança. Em 2021, mulheres negras representaram 67,4% das vítimas de assassinato no Brasil, mostrando como os fatores sociais e raciais agravam a insegurança feminina. Além disso, mulheres de baixa renda, especialmente as que vivem em periferias, enfrentam ainda mais desafios para denunciar abusos e buscar proteção, já que muitas vezes faltam delegacias especializadas e apoio adequado em suas regiões.

Para muitas mulheres, o planejamento de cada passo é uma necessidade cotidiana, não uma escolha.

Sair de casa exige uma cuidadosa avaliação de segurança: pensar no horário, no trajeto, no transporte, e até mesmo na roupa que se veste, tudo para minimizar os riscos. Essa carga mental de autoproteção consome energia e afeta profundamente a liberdade feminina. Planejar o caminho de volta com base na iluminação das ruas ou no horário não é apenas uma questão de logística, mas uma resposta a um ambiente que frequentemente nega às mulheres o direito de ir e vir sem temor.

O reflexo desse cenário na internet e no debate público.

Na mídia e em discussões sobre segurança, os crimes patrimoniais acabam tomando o protagonismo, enquanto a violência de gênero recebe menos atenção. As políticas de segurança se concentram, majoritariamente, em policiamento e combate ao crime, mas segurança vai muito além disso — envolve acesso a moradia digna, transporte seguro, iluminação pública adequada e até ambientes digitais livres de ameaças. Para as mulheres, é essencial que esses debates contemplem suas necessidades e seus medos, criando um espaço onde possam existir e circular sem medo. Construir uma sociedade verdadeiramente segura e inclusiva implica ouvir e atender as mulheres em todos os níveis.

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