Manaus | 4 de junho de 2026 | 09:43:54

Os jogos dos humanos

Difícil não foi a prova de hoje, a minha maior luta foi contra o preconceito. Foram essas as primeiras palavras do medalhista de prata olímpico, o atleta brasileiro da marcha atlética Caio Bonfim, que havia acabado de fazer história nas tão famosas ruas parisienses, com linha de chegada na Esplanada Invalides, local que abriga o icônico Palácio dos Inválidos – um enorme monumento parisiense – cuja construção foi ordenada por Luís XIV, em 1670, para dar abrigo aos inválidos dos seus exércitos.

“Não estamos brincando de rebolar, e quando me perguntam o que faz um marchador eu digo que a gente faz andando o que as pessoas fazem correndo”, desabafou Caio, que teve que lidar com muita hostilidade desde o início de sua carreira. A declaração revela uma triste realidade que muitos atletas enfrentam no dia a dia, num país que insiste em idealizar deuses repentinos que surgem de quatro em quatro anos, mas que coloca uma venda nos olhos para não enxergar o que deveria.

Assim como ele, nossas históricas medalhistas da ginástica artística, Rebeca Andrade, Flávia Saraiva, Jade Barbosa, Júlia Soares e Lorrane Oliveira, também enfrentaram seus medos e desafios. Quem diria que num esporte marcado pelo estereótipo da mulher europeia, que teve o seu ápice na perfeição de Nadia Comaneci, que chocou o mundo ao conquistar o 10 perfeito nas Olimpíadas de Montreal, em 1976, o Brasil subisse no pódio com duas atletas negras, sendo uma delas, Rebeca Andrade, se tornando a maior atleta feminina da história do país. 

Filha de uma empregada doméstica, irmã de 7, Rebeca traz consigo na alma um bordão conhecido nos movimentos de mulheres negras: “Nossos passos vêm de longe”. E como vem. Não é fácil remar contra a correnteza, e contrariar as estatísticas. 

Tanto Caio como Rebeca, e também, por que não, Rayssa Leal, a nossa fadinha que encanta o mundo sobre as rodas de seu skate, e que aos 16 anos se tornou a mais jovem a conquistar duas medalhas olímpicas em edições diferentes, podem até não parecer quando estão em ação, mas são humanos. E humanos choram, sentem, caem, fraquejam. 

Atletas não são super-heróis ou deuses. São pessoas forjadas na dor, na resiliência, na vontade de superar seus monstros internos, seus limites. Para eles, uma medalha não é apenas um objeto que dignifica o esforço, é também um aviso: Sim, se eu posso, você também pode!

Assim como aconteceu na Revolução Francesa quando o povo se levantou contra a realeza, atualmente vemos pessoas comuns, de origens diversas, se levantando contra o preconceito, contra as limitações sociais, e, como num ato de rebeldia, marcam de vez os seus nomes na história do esporte.

Uma resposta

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Relacionados

Espaço Publicitário

Últimas postagens