Mais uma vez, A Repórter traz um tema preocupante e incômodo. Segundo pesquisa elaborada pelo Instituto do Sono, 32,9% da população tem apneia do sono, enquanto 68,6% ronca em alguma frequência. Com esses parâmetros e a experiência do profissional convidado, trazemos com exclusividade esse tema crucial para um entendimento fácil e educativo.

Imagem: Divulgação.
A apneia do sono é caracterizada por ruídos e interrupções na respiração que se repetem, no mínimo, cinco vezes num período de 60 minutos. Não se trata de um simples ronco. Na apneia, a barulheira noturna é entrecortada por engasgos — e o duro é que muitas vezes o indivíduo nem os percebe enquanto dorme. Essas pequenas pausas na entrada de ar chegam a diminuir a concentração de oxigênio no sangue.
O site A Repórter convidou o Professor Doutor Álvaro Siqueira, médico otorrinolaringologista, para esclarecer melhor essa questão incômoda que é o ronco e a apneia.
A Repórter – O que é Apneia e o que é Ronco?
Dr. Álvaro – A apneia é um distúrbio do sono que afeta a respiração de uma pessoa, fazendo com que ela pare de respirar uma ou mais vezes ao longo de uma única noite de sono. Ronco é o som causado pela vibração dos tecidos da faringe quando o ar passa por esta região. “Quando dormimos, há um relaxamento natural dessa musculatura que pode vibrar com a passagem do ar”.
A Repórter – O que é a Apneia obstrutiva do sono? É crônica?
Dr. Álvaro – A Síndrome da Apneia Obstrutiva do Sono – ou simplesmente apneia do sono – é uma doença crônica caracterizada por recorrentes e temporárias pausas respiratórias durante o sono. A apneia obstrutiva do sono é um transtorno comum e potencialmente grave. A via aérea torna-se repetidamente bloqueada pelo relaxamento dos tecidos da faringe e da base da língua, limitando a quantidade de ar que atinge os pulmões.

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A Repórter – A apneia do sono aumenta a probabilidade do paciente desenvolver doenças potencialmente letais?
Dr. Álvaro – A apneia do sono aumenta a probabilidade do paciente desenvolver doenças potencialmente letais. Está associada ao aumento do risco de hipertensão, insuficiência e arritmia cardíacas, derrame e diabete. Ela acomete aproximadamente 30% da população adulta mundial.
A Repórter – Quais os principais sintomas de quem tem a Síndrome da Apneia Obstrutiva do Sono (SAOS)?
Dr. Álvaro – Ronco alto ou frequente; Pausas respiratórias presenciadas durante o sono; Sons sufocantes ou ofegantes e sensação de sufocamento durante o sono; Sonolência diurna ou fadiga; Sono fragmentado; Dor de cabeça matinal; Noctúria (acordar durante a noite para ir ao banheiro urinar);
Dificuldade na concentração; Perda de memória; Diminuição do desejo sexual; Irritabilidade.
Outros sintomas incluem boca seca ao despertar e salivação excessiva, provavelmente devido à respiração oral, além de sono agitado e sudorese noturna, pelo aumento do esforço respiratório.

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A Repórter – Quais são os três tipos de apneia? Existe uma mais perigosa que a outra?
Dr. Álvaro – Apneia Obstrutiva do Sono (AOS): é o tipo mais comum de apneia do sono. Caracterizada pela obstrução das vias aéreas superiores durante o sono, normalmente acompanhada de ronco alto e frequente e redução da saturação de oxigênio no sangue, seguida de um breve despertar para respirar. Quando isso acontece, o paciente pode roncar ainda mais alto ou causar ruídos sufocantes enquanto tenta respirar. Nesse tipo de apneia do sono, a principal causa é a obstrução do canal respiratório. Situações como obesidade, aumento das amígdalas, circunferência do pescoço e alterações craniofaciais, podem levar ao desenvolvimento da doença.
Apneia central do sono (ACS): Esse tipo de apneia ocorre por uma falha na comunicação entre o cérebro e as vias aéreas. Nesses casos, os músculos responsáveis pela respiração não recebem o sinal de que devem funcionar e, por isso, continuam estáticos. O que ocorre, então, não é uma interrupção da respiração, mas sim as vias aéreas que nem tentam respirar, por não receberem o comando para tal. Geralmente, é causada por doenças neurológicas, como mal de Alzheimer, Parkinson, esclerose lateral amiotrófica, além de danos ao cérebro como os causados por encefalite, acidente vascular cerebral, lesões, entre outros. Esse tipo pode também estar conectado a problemas cardiovasculares, hipotireoidismo, insuficiência renal e o uso de alguns medicamentos.
Apneia mista do sono: É o terceiro tipo, é uma combinação de fatores centrais e obstrutivos que ocorrem no mesmo episódio de apneia do sono. É o tipo menos comum de apneia do sono.

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A Repórter – Apneia em crianças. Mito ou realidade? O Sr pode explicar, de forma clara e instrutiva, aos pais sobre isso?
Dr. Álvaro – Além de ser um problema comum entre adultos, a apneia obstrutiva do sono também pode afetar as crianças. Caracterizada pela obstrução da garganta durante o sono, o problema frequentemente não é reconhecido durante a infância. Por isso, é fundamental que os pais procurem conhecer os sintomas da doença para poder identificá-la, quanto antes, entre os filhos. Os sintomas são: Além do ronco, os principais sintomas da apneia do sono entre as crianças são: sono agitado, dificuldade para respirar, posições bizarras durante o sono, sudorese, urina na cama, hiperatividade, déficit de atenção, dificuldade de aprendizado e baixo rendimento escolar.

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A Repórter – Como a apneia do sono afeta seu corpo?
Dr. Álvaro – Pessoas com apneia do sono frequentemente ficam muito sonolentas durante o dia, roncam alto e ficam ofegantes ou têm episódios de asfixia, interrupções na respiração e despertares súbitos com engasgos. A apneia do sono aumenta o risco de certos distúrbios médicos e morte prematura.
A Repórter – Todo mundo que ronca tem SAOS?
Dr. Álvaro – Segundo um estudo britânico realizado pelo Centro do Sono de Londres, o consumo de bebidas alcoólicas prejudica os ciclos do sono e pode ocasionar danos graves à saúde quando consumidos usualmente antes de dormir, como a apneia do sono. Embora o consumo de álcool diminua o tempo necessário para cair do primeiro sono, ele pode anular o ciclo do sono responsável pelo maior descanso do indivíduo, o sono REM, no qual ocorrem os nossos sonhos. O cigarro causa prejuízos não somente a sua saúde respiratória, mas também ao seu sono. Segundo estudos, quem fuma tem até três vezes mais chances de sofrer apneia obstrutiva do sono, o tipo mais comum do distúrbio, causado pelo colapso dos músculos na parte posterior da garganta durante o sono.
A Repórter – Dormir de barriga para cima potencializa o ronco e a SAOS?
Dr. Álvaro – A posição do corpo tem um papel importante durante o sono e muitas vezes pode fazer a diferença entre ter ou não uma boa noite de sono. Para pessoas que roncam ou que sofrem de apneia obstrutiva do sono (AOS), essa é uma questão importante, pois vários estudos mostram que indivíduos dormindo em posição supina (de barriga para cima) têm maior probabilidade de roncar ou ter apneias, em relação àqueles que dormem na posição lateral.

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A Repórter – E quando o problema afeta a vida conjugal?
Dr. Álvaro – Uma pesquisa realizada pela Fundação Nacional do Sono dos EUA demonstra que, cada vez mais, os casais dormem em camas separadas. De acordo com dados desse estudo, o número de casais dormindo separados em 2001 era de 12%, foi para 23% em 2005 e, em 2015, saltou para 40% – com tendência a aumentar ainda mais com o passar dos anos. A pesquisa aponta também que 36% deles relataram que o ronco é a principal motivação para não dormirem juntos. Procurar dormir de lado, utilizando colchão e travesseiro adequados; procurar ajuda especializada, de médico ou dentista, e seguir suas orientações em caso de obstrução nasal, rinite, alergia, refluxo gastroesofágico, bruxismo (ranger de dentes noturno), etc.; manter o peso adequado; evitar o tabagismo e o consumo de bebidas alcoólicas; praticar atividades físicas.

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A Repórter – O que é preciso fazer para diminuir o ronco e a apneia do sono?
Dr. Álvaro – Dado que a maioria dos quadros de apneia é causada por obesidade (cerca de 60%), muitas vezes a mudança de hábitos de vida – principalmente a perda de peso e evitar o uso de tabaco, álcool e sedativos – pode resolver o quadro. Além disso, mudar a posição ao dormir e tratar outras doenças de base também ajudam a melhorar o quadro. Os pacientes que têm apneia do sono devido a alterações da estrutura craniofacial podem recorrer a uma diversa gama de cirurgias da face, que por alterarem a anatomia facial, ajudam a desobstruir a via aérea, corrigindo assim o distúrbio respiratório. Dentre as opções estão as cirurgias de nariz – como desvio de septo e turbinectomia –, as cirurgias de adenoide e faringe, e também os procedimentos de avanço maxilo-mandibular, sendo mais complexos, porém com excelentes resultados. Há, também, medidas muito efetivas e menos invasivas para tratar o ronco e a apneia do sono. Dentre elas, destacam-se os aparelhos intra-orais e o CPAP (Pressão Positiva de Ar Contínuo). Polissonografia é fundamental para o diagnóstico de distúrbios que acontecem enquanto dormimos, como a apneia (obstrução da respiração que provoca o ronco).

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A Repórter – Quais os perigos de não tratar a apneia do sono?
Dr. Álvaro – A apneia está começando a ser levada mais a sério, e seus riscos estão associados a problemas bem graves, maiores do que as consequências mais imediatas. Por exemplo, existe uma conexão forte com a hipertensão. A apneia provoca uma reação do sistema nervoso, que aumenta demasiadamente o fluxo sanguíneo. Por consequência, esse mal pode trazer riscos ao coração. Esse órgão ainda pode sofrer mais por conta de todo o esforço que o corpo precisa fazer para respirar durante a noite. O peito normalmente sofre uma pressão maior do que a normal e os próprios batimentos do coração ficam comprometidos. Outro problema grave que pode surgir por conta da apneia, ou que talvez seja agravado pela sua presença, é a diabete. Acredita-se que esse distúrbio pode dificultar a ação de insulina no sangue, elevando a concentração de açúcar e aumentando a possibilidade de diabete. Além disso, condições respiratórias mais graves podem ocorrer. Logo após a interrupção da respiração, o corpo responde com uma espécie de “pânico”, inspirando muito ar, que pode ser mais difícil de filtrar. Assim, podem vir, com ele, substâncias maléficas que podem chegar até o pulmão, aumentando o risco de pneumonia, por exemplo. Por fim, existem estudos que indicam que a apneia tem relação com a agressividade do câncer. Porém, ainda não existe comprovação.

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A Repórter – Se por acaso uma pessoa acorda se sufocando ou ofegante, percebe paradas em sua respiração enquanto dorme, observe uma “louca vontade de dormir de dia”, e o marido ou a esposa reclamam do barulho do ronco (risos), é o momento de buscar tratamento ou já está em estado avançado?
Dr. Álvaro – Esses sintomas podem indicar um distúrbio do sono conhecido como apneia do sono. A apneia do sono é caracterizada por paradas na respiração durante o sono, ronco alto e sonolência diurna excessiva. É importante buscar tratamento o mais rápido possível, ao poder causar complicações sérias para a saúde, como hipertensão, problemas cardíacos, acidentes vasculares cerebrais (AVCs) e outros.

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A Repórter – Prevenir seria uma boa mensagem final? Desde já, agradecemos sua participação e pedimos suas considerações finais.
Dr. Álvaro – Não espere até que os sintomas se agravem; consulte um médico especializado em distúrbios do sono para avaliação e orientação adequada.







