Quatro mulheres deram entrevista nas últimas semanas e afirmam ter sido vítimas de estupros, tortura física e psicológica cometidas pelo astrólogo e empresário Tales de Carvalho, filho do escritor Olavo de Carvalho e um dos proprietários da escola de cursos Instituto Cultural Lux et Sapientia (ICLS). Os relatos incluem depoimentos de uma das ex-mulheres de Tales, Calinka Padilha de Moura, e das duas filhas mais velhas do casal, Julia Moura de Carvalho e Ana Clara Moura de Carvalho.
Elas narram episódios de sadismo e crueldade que teriam ocorrido ao longo de mais de duas décadas, além da formação de uma espécie de seita, em torno do ICLS. A coluna também conversou com outras três ex-mulheres de Tales.
De acordo com a reportagem, Tales de Carvalho chegou a ter quatro mulheres ao mesmo tempo, vivendo na mesma casa. A primeira a se casar com Tales foi Calinka de Moura, em setembro de 1997, quando ela tinha 18 anos e ele, 22. Hoje, ela tem 46, e ele, 50. Os dois eram budistas à época, mas o astrólogo converteu-se ao islamismo em 1998 e convenceu a mulher a fazer o mesmo. Naquele tempo, os dois moravam em São Paulo e tinham uma vida normal comparada a que viria a ter depois.
Com cerca de quatro anos de casamento, de acordo com Calinka, Tales comunicou que pretendia ter uma segunda esposa: uma criança de 12 anos. O empresário, que também foi ouvido pela coluna, negou que a menina, hoje com 35 e ainda casada com Tales, tivesse essa idade.
Por meio de nota enviada por seu advogado, Tales afirma que ela tinha 14, idade a partir da qual uma relação sexual não caracterizaria estupro de vulnerável. Calinka lembra que o novo relacionamento do marido caiu como uma bomba em seu casamento, inclusive porque a menina era enteada da mãe de Tales, Eugênia. A união de Tales de Carvalho com quem em algumas famílias seria considerada uma irmã, disse Calinka, envolvia um contrato, que previa a consumação do casamento apenas quando ela completasse 16 anos. A ex-mulher do astrólogo afirma, no entanto, que isso aconteceu quando a jovem tinha 15 anos.
Em 2003, Tales enviou um e-mail para sua esposa Calinka confessando um forte sentimento pela jovem, à época com 14 anos, e pedindo compreensão para seu desejo de ter uma segunda esposa. Ele relatou ter visões de um futuro glorioso para todos eles, inclusive para Calinka. No final de 2006, Tales expressou o desejo de trazer a menina para morar com eles, o que levou Calinka a se separar temporariamente e voltar para Curitiba com suas filhas.
Conforme o relato de Calinka, no entanto, cerca de um mês depois, no começo de 2007, Tales pediu o divórcio por telefone, mas teria que ser sob os preceitos islâmicos. A regra seria a seguinte: Calinka deveria ficar quatro meses sem ter relações com ele ou outros homens, o que ela afirma ter respeitado. Depois desse período, ainda de acordo com Calinka, já solteira, ela passou a trabalhar em um salão de beleza, frequentar festas e namorar. Quando Tales viajou a Curitiba, disse ter tomado conhecimento de que a ex-mulher havia virado “uma vagabunda” desde a separação e pediu que reatassem o casamento, o que, segundo ela, não foi aceito.

Em julho de 2007, as filhas do casal foram passar férias com o pai em São Paulo, ocasião em que ele deu a Calinka um ultimato: ou ela reatava o casamento, ou as meninas não voltariam a Curitiba, com medo, ela cedeu e voltou para ele. Os dois casaram-se novamente em agosto de 2007 e, no fim daquele ano, passaram a viver juntos. Tales, Calinka, as duas filhas e a nova esposa.
Ao retornar para Tales, Calinka passou a enfrentar dois anos e meio de agressões e torturas constantes que durou de agosto de 2007 e terminaram no fim de 2009. Tales, inconformado com a vida de solteira de Calinka, começou a agredi-la para obter detalhes desse período. A outra esposa de Tales também sofria torturas semelhantes às que Calinka sofria. Tales justificava suas ações como uma forma de purificação prevista pelo Islã, embora líderes religiosos, afirmem que tais práticas não têm base no islamismo e que a bondade é representada pelo bom tratamento à esposa.
Conforme o relato de Calinka, ela conta ter passaou a ser agredida, primeiro, com um cinto, e posteriormente, para evitar deixar marcas, Tales passou a fazer xixi ou molhar o corpo de Calinka com água e chicoteá-la com um fio de telefone. Principalmente, lembra ela, na vagina.
“Ardia que nem fogo. Ele disse que havia pesquisado que o fio de telefone no corpo molhado era bom porque doía mais e não deixava marca”, lembra, enumerando uma sequência de atos de sadismo, como ameaçar arrancar seu clitóris com uma lâmina ou quebrar com um martelo os ossos de sua perna. As agressões incluiriam ainda estupros com outros requintes de crueldade.
A outra esposa, na época já maior de idade, também teria sido vítima de técnicas como a do fio de telefone, em razão de uma suposta traição cometida quando ela tinha 17 anos e descoberta por Tales de Carvalho. Algumas das sessões de tortura ocorriam com as duas juntas.
Calinka conta que um dos piores momentos das sessões de tortura era quando Tales as obrigava a assistir a vídeos de crianças sendo estupradas. Meninos e meninas com menos de dois anos. O empresário, excitado com as cenas, teria o hábito de, na sequência, estuprar e sodomizar Calinka.
As duas filhas de Tales, também entrevistadas pela coluna, Julia e Ana Clara, hoje com 26 e 24 anos, respectivamente, relataram ter encontrado no computador do pai, ainda crianças, vídeos de estupros de meninos e meninas.
Calinka classifica sua situação na época como “sub-humana” e diz que era chamada e tratada como “escrava sexual” por Tales. “Ele dizia que eu era a escrava sexual dele. E eu durante boa parte disso tudo acreditava que merecia passar por aquilo. Eu tinha passado por uma lavagem cerebral”, lembra. Havia momentos, porém, em que parecia sair da situação de pleno domínio e insurgir-se. Diz que, numa madrugada, tentou fugir, mas foi alcançada por Tales, que a arrastou pelos cabelos de volta para casa. Naquele dia, lembra que ele quebrou-lhe duas costelas.
O sofrimento, relatou Calinka, só parou porque tanto ela quanto a segunda mulher perceberam que havia uma maneira de fazê-lo parar: engravidar.
O próprio foi quem disse que pararia de agredi-las sistematicamente caso engravidassem. Esse seria um sinal de que Deus as havia “perdoado”. Calinka propositalmente, então, engravidou da terceira filha, hoje com 14 anos e, à revelia da mãe, vivendo com Tales. Mesmo assim, no início da gestação, ainda sem que tivesse contado a Tales sobre a gravidez, Calinka afirmou ter sido estuprada com uma garrafa de vodca. Nesse momento, durante as sevícias, ela teria revelado a ele que estava grávida.
Calinka decidiu separar-se de Tales de Carvalho em abril de 2021, após, segundo ela, tomar coragem para romper com um estado de infelicidade. Saiu da casa de Tales fugida, com a filha mais nova, hoje uma adolescente de 14 anos; a filha mais velha, Julia; e o genro, um ex-aluno do ICLS a quem Julia havia sido prometida aos 16 anos. Ana Clara também já estava casada em 2021, com um muçulmano, paraguaio, e vivia em Foz do Iguaçu (PR).
A filha mais nova do casal atualmente tem 14 anos e vive com Tales por escolha própria, mediante acordo judicial entre o pai e a mãe.
O ex-casal assinou o trato em 12 de maio de 2022 um acordo em que o astrólogo se comprometeu a pagar R$ 60 mil à ex-mulher a título de indenização, contudo, Calinka afirma ter recebido apenas R$ 5 mil.
Outros casamentos de Tales
Tales também se casou, segundo Calinka e as filhas, com uma terceira mulher, marroquina, que ele teria conhecido remotamente. A vinda dela ao Brasil, em 2011, atenuou por alguns meses o ambiente de violência na casa. Apesar disso, Tales também maltratava a terceira mulher, reclamava que ela era “feia” e “mais velha que o esperado”. A moça acabou sendo mandada de volta ao Marrocos em junho de 2011, três meses depois de sua chegada, também de acordo com Calinka.
Depois disso, Tales de Carvalho casou-se com outras duas brasileiras: uma com quem ele ficaria quase 10 anos, e que o deixou em fevereiro deste ano, e uma jovem de 17 que ele conheceu em um site de relacionamentos e com quem ficaria por cerca de três anos. A moça de 17 era aluna do ICLS, tal qual uma estudante goiana que fugiu de casa, no começo deste ano no Paraguai, para ir morar com Tales.
Defesa de Tales de Carvalho
Por meio de seu advogado, Frank Reche Maciel, o filho de Olavo de Carvalho respondeu que as acusações da ex-mulher “foram utilizadas por ela para tentar privá-lo da guarda da filha menor”. “A Justiça não deu crédito a essas mentiras, a guarda foi decidida em favor de Tales, e Calinka se comprometeu com não repeti-las em troca da extinção de duas queixas-crime, afirmou a nota.
Sobre o casamento com uma menor de idade, a nota disse ser “fato público que Tales e ela se enamoraram quando ela tinha 14 anos, passando a morar juntos quando ela já contava com 18 anos, depois do casamento segundo a religião islâmica”.
A coluna não conseguiu contato com a mulher que ainda vive com Tales, a quem, segundo Calinka, ele pediu em casamento aos 12 anos.





