O uso desenfreado de medicamentos e a facilidade para comprá-los foram apenas alguns dos assuntos preocupantes abordados na entrevista. Em tom de alerta, e informação, a médica psiquiatra trouxe informação e a realidade que a grande maioria, esconde ou mascara.
A Repórter: Com a despersonalização das relações pós virada do Milenium, e as novas gerações, bem como suas nomenclaturas, em questões de acesso ou consumo de fármacos: o que se tornou certo e o que se tornou fácil?
Dra. Loren – O que percebo de positivo nas novas gerações é que elas têm um acesso muito maior a informações e após a pandemia as pessoas têm demonstrado um interesse crescente por assuntos relacionados à saúde mental. As pessoas têm identificado em si alguns sinais e sintomas que associam a algum transtorno mental e muitas vezes baseadas em um autodiagnóstico (que pode estar correto ou não) e buscam ter acesso a tratamentos. Precisamos ter sabedoria e discernimento de entender que embora o acesso esteja mais fácil, ainda precisamos de uma avaliação profissional cuidadosa para evitar uso abusivo e discriminado de medicações e suas consequências.
A Repórter: Qual o real problema, e perigo, da automedicação? Até onde ela pode chegar?
Dra. Loren – A automedicação é muito perigosa e deletéria ao organismo. Nosso cérebro busca a homeostase, o equilíbrio, por isso, no caso das substâncias com potencial de causarem dependência, o cérebro faz uma down regulation, que é quando você usa uma substância que fica em excesso no cérebro e ele “corrige” esse desequilíbrio criando receptores. O excesso de receptores causa um mecanismo chamado tolerância onde o indivíduo precisa de doses cada vez maiores pra sentir o mesmo efeito dos primeiros usos. À medida que aumentam as doses, o cérebro ativa o mecanismo de down regulation, novamente, fabricando novos receptores evoluindo assim para a dependência química. Em acompanhamento médico não há o risco de dependência porque o médico sabe reconhecer e agir preventivamente impedindo a consolidação da dependência química.
A Repórter – Dra., quais cuidados as mães de crianças, que estão naquela fase das descobertas, precisam ter?
Dra. Loren – As mães devem sempre monitorar os comportamentos e hábitos dos filhos para evitar exposição as drogas. Muitos iniciam o uso por curiosidade, mas acabam infelizmente passando ao uso nocivo ou abusivo.

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A Repórter – Há uma grande falta de informação sobre onde levar ou a quem recorrer no caso de um ente querido sofrer um surto, decorrente de um transtorno psicótico. Qual seria a atitude correta?
Dra. Loren – No caso de um surto psicótico agudo (aquele que a pessoa tem alucinações e delírios, associado ou não à heteroagressividade) esse indivíduo deve ser encaminhado para um serviço de urgência psiquiátrica, na nossa cidade esse local é o CESMAM – Centro de Saúde Mental do Amazonas.
A Repórter – E no caso de um paciente com TAG (Transtorno de Ansiedade Generalizada), o que é preciso, basicamente, para que a pessoa tenha uma vida normal? Ou até que grau podemos considerar essa normalidade?
Dra. Loren – A ansiedade faz parte da vida e é um mecanismo importante pra nossa sobrevivência. O medo nos protege de acidentes, de situações de risco. O transtorno de ansiedade generalizada é quando esse medo é ativado, mas não volta ao estado anterior à ativação. A pessoa passa a ter preocupações excessivas, medos que podem ser reais ou não e geralmente é acompanhado de sintomas físicos como taquicardia, aperto no peito, falta de ar, sensação de nó na garganta, mãos e pés gelados, formigamento, náuseas, aumento da micção e da evacuação, sudorese, tontura entre outros. Quando ela está prejudicando o seu dia a dia e gerando sofrimento dizemos que é um transtorno e precisa ser tratada. Com tratamento adequado o paciente evolui para a cura completa.
A Repórter – A senhora é uma grande referência no Norte do Brasil em tratamento com dependentes químicos, em diversos graus. Qual é a parte mais difícil? O paciente aceitar que está doente e que essa condição pode atingir terceiros? Existe realmente uma cura?
Dra. Loren – No primeiro atendimento fazemos a entrevista motivacional que vai determinar qual o juízo crítico que a pessoa tem sobre o seu uso, muitas vezes o usuário não consegue perceber que já está tendo prejuízos (financeiros, de relacionamento, acadêmicos ou laborais) pelo uso da substância, nosso trabalho inclui a conscientização sobre a forma de uso (recreacional, nocivo ou abusivo) e seus efeitos a curto, médio e longo prazo. O tratamento é individualizado e precisa incluir uma equipe multiprofissional. Hoje a ciência admite que a dependência química é uma doença crônica. Não está ligada à falta de vontade ou valores morais, mas a alterações na química do cérebro que são muitas vezes permanentes.
A Repórter – Recentemente a ANVISA se pronunciou sobre a substância Hemitartarato de Zolpidem, que virou febre entre os jovens. Até que ponto estamos predestinando esses jovens ao colapso?
Dra. Loren – Como falamos a pouco, o uso indiscriminado de medicações sem acompanhamento médico pode levar a vários problemas incluindo dependência química. O uso de zolpidem pode causar alucinações, amnésia anterógrada (pessoas podem praticar ações que não lembram como ligar pro ex-namorado, mandar áudio brigando com o chefe, fazer compras online, até mesmo ter relação sexual e não se lembram no dia seguinte) e outros males. Nenhum remédio deve ser tomado sem prescrição médica mediante uma avaliação criteriosa de riscos versus benefícios. Bem indicado, é uma droga segura e efetiva, mas infelizmente muitas pessoas desvirtuam o uso e associam a bebidas alcoólicas ou usam doses exageradas, sem a devida orientação médica necessária. Sabe aquele ditado que diz: A diferença entre o veneno e o remédio é a dose?
A Repórter – Dra. Loren, de antemão agradecemos sua disponibilidade e gostaríamos de pedir uma mensagem de força, coragem e motivação sobre esse delicado assunto que é a dependência. É possível?
Dra. Loren – Claro. A dependência química aprisiona. O adicto é um dependente do prazer, mas não de qualquer prazer, apenas do prazer causado pela substância que ele consome. A pessoa não consegue mais sentir prazer com a companhia dos amigos e das pessoas que ama, nem com esportes, nem com comida, nem atividades de lazer. A pessoa só consegue sentir prazer com o uso. Assim vai se afastando dos amigos, familiares, se isola, só sai com os “parceiros” que usam junto. Você que começou a experimentar por curiosidade, ou pra fugir dos seus problemas, você que está se sentindo triste e aprisionado saiba que o que você sofre é uma doença, que tem tratamento. Você pode retomar sua vida de onde parou. Você pode reconquistar sua liberdade e ser feliz. Procure ajuda profissional. Não desista de você.
Ricardo Lins para o site A Repórter
O consultório da Dra. Loren Cavalcante está situado no Edifício The Office, no bairro de Adrianópolis, sala 405. Informações no telefone (92) 99393-7046.









