Após dois anos de intensas negociações e diante de uma enxurrada de desinformação promovida pela extrema direita internacional, os 194 países membros da OMS (Organização Mundial da Saúde) não conseguiram chegar a um acordo sobre como o mundo deveria reagir a uma nova pandemia.
Sem um consenso, as regras que restringem a distribuição de vacinas e mantêm o poder concentrado nas mãos das nações mais ricas permanecem vigentes.
O objetivo era estabelecer um pacto no qual o nacionalismo seria substituído por uma estratégia para permitir uma resposta mais eficaz globalmente do que a observada durante a pandemia da covid-19, que ceifou a vida de 14 milhões de pessoas. Entre as medidas propostas estava um acordo para corrigir as disparidades no acesso a vacinas e tratamentos entre países ricos e pobres.
Na noite de sexta-feira (24), as economias emergentes e as desenvolvidas não chegaram a um consenso sobre o acesso às vacinas e tecnologias, impedindo a conclusão de um acordo. Enquanto europeus e americanos queriam que os países emergentes fornecessem amostras de vírus e patógenos imediatamente após um surto, as economias mais pobres insistiam que isso só ocorreria se houvesse garantia de acesso às vacinas produzidas a partir dessas amostras.
Nos discursos dos países africanos, latino-americanos e muitos asiáticos, transparecia a revolta e o trauma por não terem obtido vacinas entre 2021 e 2022, enquanto doses eram acumuladas em armazéns nos EUA e Europa. O tratado propunha que a OMS ficasse com 20% da produção de vacinas, testes e tratamentos como garantia para que os países mais pobres pudessem enfrentar uma pandemia. Além disso, previa que os governos teriam que divulgar seus acordos com empresas farmacêuticas durante uma pandemia.
Entretanto, os países ricos resistiram a qualquer concessão de acesso às vacinas, diagnósticos ou tratamentos, mantendo firmes a ideia central das patentes e da inovação. Não houve acordo também sobre a transferência de tecnologia.
Na OMS e entre especialistas, não há dúvidas de que outra pandemia pode ocorrer. A expectativa era que a comunidade internacional estivesse mais preparada. A meta era aprovar o tratado durante a Assembleia Mundial da Saúde, que se inicia na próxima semana.
Agora, a proposta é apenas estender o prazo de negociação por mais um ano. Os mais céticos alertam que, quanto mais distante da pandemia, menor será o senso de urgência para se chegar a um acordo. Outros destacam que pouco mudará no mundo nos próximos doze meses para convencer os países ricos a ceder em termos de tecnologia e acesso às vacinas.







