Uma pesquisa que está sendo realizada pela Universidade de São Paulo, intitulada Novas Formações de Vida Coletiva nas Periferias de São Paulo: Mães Solo, Pais Ausentes, Violência e Circulação de Moradias, tem o objetivo de entender as mudanças nas formações familiares e a composição dos grupos domésticos nas periferias da cidade de São Paulo.
A pesquisadora do Núcleo de Estudos da Violência (NEV) da USP e uma das organizadoras do projeto, Giane Silvestre, explica que a realidade tem mudado bastante ao longo dos anos. Ela cita um estudo realizado entre os anos 1960 e 1970 o qual indicava que, até o começo dos anos 1980, existia um arranjo familiar nuclear nas periferias, com papéis bem definidos: o pai era o provedor e a mãe era uma complementação de renda — isto quando trabalhava fora. Ela também cita um modelo de autoconstrução das famílias, que buscavam seu espaço para se organizar, muitas vezes construindo seu próprio imóvel, e isso ajudava na fixação desse arranjo familiar na periferia.
Segundo ela, isso tem se transformado radicalmente nos últimos anos e passou a se ver mais circulação de pessoas e moradias. “O aluguel substituiu o modelo da autoconstrução familiar, o que possibilitou esse maior fluxo nas periferias.” Giane ainda completa que essa realidade é responsável por mudar o arranjo familiar periférico.
“O termo mãe solo é uma releitura desse lugar, que as próprias mulheres fazem da sua condição de mãe e de exercer a maternidade com a ausência dos pais, que pode se dar de várias formas”, comenta a especialista. Ela acrescenta que esse novo termo da literatura, mãe solo, corrigiu a expressão mãe solteira, que estigmatizava a mulher de forma negativa — colocando-a como um sujeito passivo de um processo social. Giane diz que o protagonismo das mulheres nessa nova configuração dos arranjos familiares se dá muitas vezes por opção, superando a visão pejorativa de antigamente, na qual as mulheres eram abandonadas e ficavam em uma condição de fragilidade socioemocional.
A pesquisadora comenta que os dados de campo e os estatísticos demonstram que a concepção popular de que o modelo nuclear de família predomina no País está errada. “Esse padrão pode ter sido predominante por um tempo na sociedade, mas a mulher sempre teve um protagonismo nas rendas domésticas”, comenta.










